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segunda-feira, 31 de maio de 2021
Grisalho
Quebrou todos os relógios da casa. Tirou a bateria do celular. Parou de olhar para o céu. Pintou os cabelos, alongou a coluna. Comprou um tênis leve. Fez novos amigos. Bebia como se fosse ontem.
Nunca se deu bem com a passagem do tempo. Sempre ficou onde esteve, olhando por baixo da aba do boné.
sábado, 14 de março de 2020
Caminhos
Devido às coisas da vida - que acabam nos afastando de muitas coisas da vida - não nos víamos tanto. Mas sempre que ela vinha até minha casa, esquecia algum objeto. A memória dela era boa, recordava com facilidade os momentos felizes e não apagava das ideias algumas brigas.
Eu, ruim de direção, sabia de cor os caminhos iluminados e escuros para a casa dela. Chegava fácil, como não chegava a lugar algum.
Essas contradições não faziam sentido. Sempre me pegava pensando, segurando o último brinco, ou pulseira, ou relógio, ou celular, ou coração que ela havia deixado para trás em algum canto da minha pequena casa. Como sabia voltar, eu ia e levava para ela.
Um dia me dei conta de que tudo tinha a ver com caminhos. Caminhos para onde, apesar do tempo e das coisas da vida, sempre vamos voltar. Sempre.
Eu, ruim de direção, sabia de cor os caminhos iluminados e escuros para a casa dela. Chegava fácil, como não chegava a lugar algum.
Essas contradições não faziam sentido. Sempre me pegava pensando, segurando o último brinco, ou pulseira, ou relógio, ou celular, ou coração que ela havia deixado para trás em algum canto da minha pequena casa. Como sabia voltar, eu ia e levava para ela.
Um dia me dei conta de que tudo tinha a ver com caminhos. Caminhos para onde, apesar do tempo e das coisas da vida, sempre vamos voltar. Sempre.
quarta-feira, 16 de maio de 2018
Dentaduras
Descobriu os segredos da vida. Sim, são vários. A vida é plural, com o perdão do clichê. Sabia como tudo funcionava. Dominando o manual, tinha como evitar os problemas, multiplicar as fases boas.
Era o seguinte: percebeu que na vida de todo mundo, as fases boas e ruins se alternavam, uma após a outra. Entre elas, etapas intermediárias, que mesclavam momentos felizes e tristes, proporcionalmente divididos de acordo com a proximidade das fases positivas e negativas.
Com isso, quando estava nas fases intermediárias (que são as que duram mais tempo), e queria viver alegrias carnavalescas, forçava tristezas de inverno. Então, chovia felicidade em sua vida.
Dramatizava pequenas questões problemáticas do dia-a-dia com a força do teatro grego e em troca, na sequência, recebia a mais intensa das comédias.
Fez isso por décadas. Havia também descoberto outras intimidades da vida, mas a que mais usava era essa da felicidade. Era o homem mais feliz do mundo. Uma vida eterna de alegrias.
A vida é criativa e ele sabia. Criar estruturas complexas como essa não é para qualquer um. E foi essa criatividade da vida que o fez se dar mal. Ela descobriu que ele havia descoberto seu segredo. Quis mostrar como as coisas são.
Um belo dia, como eram belos todos os dias dele, após uma tarde de diversões e muitas gargalhadas, o homem, já um senhor de idade nesta época, engasgou com a própria dentadura e foi parar no hospital. Como sabia os truques da vida, raramente ficava doente. Isso só acontecia quando queria passar por uma fase ruim para entrar em uma boa e forçava algum problema de saúde.
No hospital, sem entender muito bem o que estava acontecendo, (o que lhe doía bastante) ficou sabendo que não iria sobreviver. Para justificar a notícia preocupante e bizarra, o médico disse: "É a vida".
Horas antes da morte, escreveu um livro de autoajuda contando os segredos da vida. Deixou claro no final do texto que já que a vida o levou porque ele descobriu seus segredos, ele iria dividi-los com o mundo e a vida teria que matar muito mais gente.
A vida continuou como sempre foi, é o que temos todos os dias, belos ou não. Porém, as pessoas que leram o livro de autoajuda escrito pelo homem pararam de usar dentaduras. Mas, mesmo assim, elas dão gargalhadas. Com certa frequência, até.
Era o seguinte: percebeu que na vida de todo mundo, as fases boas e ruins se alternavam, uma após a outra. Entre elas, etapas intermediárias, que mesclavam momentos felizes e tristes, proporcionalmente divididos de acordo com a proximidade das fases positivas e negativas.
Com isso, quando estava nas fases intermediárias (que são as que duram mais tempo), e queria viver alegrias carnavalescas, forçava tristezas de inverno. Então, chovia felicidade em sua vida.
Dramatizava pequenas questões problemáticas do dia-a-dia com a força do teatro grego e em troca, na sequência, recebia a mais intensa das comédias.
Fez isso por décadas. Havia também descoberto outras intimidades da vida, mas a que mais usava era essa da felicidade. Era o homem mais feliz do mundo. Uma vida eterna de alegrias.
A vida é criativa e ele sabia. Criar estruturas complexas como essa não é para qualquer um. E foi essa criatividade da vida que o fez se dar mal. Ela descobriu que ele havia descoberto seu segredo. Quis mostrar como as coisas são.
Um belo dia, como eram belos todos os dias dele, após uma tarde de diversões e muitas gargalhadas, o homem, já um senhor de idade nesta época, engasgou com a própria dentadura e foi parar no hospital. Como sabia os truques da vida, raramente ficava doente. Isso só acontecia quando queria passar por uma fase ruim para entrar em uma boa e forçava algum problema de saúde.
No hospital, sem entender muito bem o que estava acontecendo, (o que lhe doía bastante) ficou sabendo que não iria sobreviver. Para justificar a notícia preocupante e bizarra, o médico disse: "É a vida".
Horas antes da morte, escreveu um livro de autoajuda contando os segredos da vida. Deixou claro no final do texto que já que a vida o levou porque ele descobriu seus segredos, ele iria dividi-los com o mundo e a vida teria que matar muito mais gente.
A vida continuou como sempre foi, é o que temos todos os dias, belos ou não. Porém, as pessoas que leram o livro de autoajuda escrito pelo homem pararam de usar dentaduras. Mas, mesmo assim, elas dão gargalhadas. Com certa frequência, até.
sexta-feira, 13 de abril de 2018
Noite alta
A solidão tem relógio grande. O ponteiro demora a fazer a volta. Ninguém vai voltar. Ficaram só eles: ele e as consequências.
Ela, a outra, magoada, insiste em fazer contato. Mas tá longe. Em outra órbita. Frases soltas não fazem textos bons. Pessoas soltas só fazem merda. Avisei a ele.
Falei para ele que agora não adianta só chorar. O relógio é grande, ele tem saúde e não quer se matar.
O relógio é grande, meu amigo. Ele não te prende. A noite se espalha. Vamos fazer merda. De novo. Foi você quem começou isso tudo, mesmo.
Ela, a outra, magoada, insiste em fazer contato. Mas tá longe. Em outra órbita. Frases soltas não fazem textos bons. Pessoas soltas só fazem merda. Avisei a ele.
Falei para ele que agora não adianta só chorar. O relógio é grande, ele tem saúde e não quer se matar.
O relógio é grande, meu amigo. Ele não te prende. A noite se espalha. Vamos fazer merda. De novo. Foi você quem começou isso tudo, mesmo.
domingo, 18 de março de 2018
Marcos
Formigas escalam todo o grande armário. Formigas não são boas para metáforas. Será que elas traçam marcos para iniciar seus maiores objetivos? Preciso parar com essa mania. Preciso parar de perder minha atenção, meu foco, com coisas pequenas.
Para recomeçar a fazer o que estava fazendo, tenho que determinar um ponto de partida. Geralmente é uma dose de alguma que tem em casa, no armário. Às vezes tem até água.
Quantos quilômetros a mulher de pernas gostosas corre por dia? O que eu vim buscar no mercado, mesmo? Acho que vim comprar uísque. A água acabou. Será que está paga? Quando pagar as contas, vou traçar uma meta para minha grana.
Preciso parar com essa mania. Não adianta definir marcos antes de começar algo. O que marca é a passagem de tempo. Só depois que acabamos o tal algo é que podemos olhar para trás e ver onde e como aquilo tudo começou. Os deuses não têm rédeas. Cacete! Tenho um compromisso. Cadê meu relógio? Será que está dentro do armário?
Para recomeçar a fazer o que estava fazendo, tenho que determinar um ponto de partida. Geralmente é uma dose de alguma que tem em casa, no armário. Às vezes tem até água.
Quantos quilômetros a mulher de pernas gostosas corre por dia? O que eu vim buscar no mercado, mesmo? Acho que vim comprar uísque. A água acabou. Será que está paga? Quando pagar as contas, vou traçar uma meta para minha grana.
Preciso parar com essa mania. Não adianta definir marcos antes de começar algo. O que marca é a passagem de tempo. Só depois que acabamos o tal algo é que podemos olhar para trás e ver onde e como aquilo tudo começou. Os deuses não têm rédeas. Cacete! Tenho um compromisso. Cadê meu relógio? Será que está dentro do armário?
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Cicatrizes
Os corpos juntos eram silêncio. Apenas sons que vazam pelos poros nus. Tudo o que eu sabia sobre ela era o que estava exposto nos mundos. No real e no virtual.
Já cobertos por finos lençóis, falávamos muito, contudo, não se aprofundava.
Eu, repetitivo, examinava as linhas dela, que pouco acrescentavam.
Dizem que as cicatrizes na pele falam por nós. As dela, apesar de muitas, nada diziam.
Já cobertos por finos lençóis, falávamos muito, contudo, não se aprofundava.
Eu, repetitivo, examinava as linhas dela, que pouco acrescentavam.
Dizem que as cicatrizes na pele falam por nós. As dela, apesar de muitas, nada diziam.
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
Sol da manhã
Os exames eram cruéis e verdadeiros. A morte tinha cheiro. Sabia que não iria passar daquela solitária e isolada madrugada. Queria pedir perdão e perdoar muitas pessoas. Não daria tempo. Uma madrugada é pouco para uma vida inteira. Precisa de tempo, precisava de vida.
Atrasou todos os relógios, acendeu as luzes, ligou o forno, abriu as janelas, regou as flores do jardim. Queria enganar o que era iminente. A madrugada acabou. Como acaba a vida e os potes de sorvete.
O dia chegou. Não enganou ninguém. Nada, nada. No entanto, viu o sol nascer. Coisa que nunca havia feito antes.
Atrasou todos os relógios, acendeu as luzes, ligou o forno, abriu as janelas, regou as flores do jardim. Queria enganar o que era iminente. A madrugada acabou. Como acaba a vida e os potes de sorvete.
O dia chegou. Não enganou ninguém. Nada, nada. No entanto, viu o sol nascer. Coisa que nunca havia feito antes.
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
Quase bipolar
O mundo nas costas, a vista embaçada. Na boca, o sabor é de algo entre o amargo e o insosso. Nada está bom. Nem o que faz de menos pior. Difícil descrever o cenário. É ruim falar do que vai mal.
Num instante, e por um instante, a postura fica reta e firme, como a de alguém que vive de aparências, olhos verdes de beleza e esperança. Talvez tenha sido por conta do açúcar no café.
O Sol entra, já no eterno quase noite, pela janela. Deseja falar como vai tudo bem.
Passou. Foi só instante, mesmo. A boca sorri sem impulso.
O desejo que sempre fica é o de que a ordem e a sequência da estrutura descrita com dificuldade mude. Seria bem melhor se a balança fosse desfavorável de outra forma.
Num instante, e por um instante, a postura fica reta e firme, como a de alguém que vive de aparências, olhos verdes de beleza e esperança. Talvez tenha sido por conta do açúcar no café.
O Sol entra, já no eterno quase noite, pela janela. Deseja falar como vai tudo bem.
Passou. Foi só instante, mesmo. A boca sorri sem impulso.
O desejo que sempre fica é o de que a ordem e a sequência da estrutura descrita com dificuldade mude. Seria bem melhor se a balança fosse desfavorável de outra forma.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Mapa astral
Lerdão, como ele era chamado, subia na laje e olhava o céu. "Os planetas só trabalham de noite. De dia, eles descansam", dizia ele. Não era muito informado. Nunca fez curso fora. Quem se importa. Era tão gente boa que quase sempre bebia de graça no bar da esquina do beco.
De uma noite para outra, sumiu. Procuramos, preocupados, por um tempo. Depois a procura passou. A preocupação nunca foi embora. Falam que ele disse que queria mudar de vida. Só que isso é óbvio para qualquer favelado.
Ele não era muito de leitura, na verdade, de todos os amigos, só eu, filho de professores, que tinha alguma intimidade com os livros. Ele sabia ler a si mesmo. Soube, de alguém informado, que ele traduziu-se. Foi morar em outro país.
Eu acho mesmo que ele está em outro planeta, desses que só trabalham à noite e descansam durante o dia. Era mais o estilo dele.
De uma noite para outra, sumiu. Procuramos, preocupados, por um tempo. Depois a procura passou. A preocupação nunca foi embora. Falam que ele disse que queria mudar de vida. Só que isso é óbvio para qualquer favelado.
Ele não era muito de leitura, na verdade, de todos os amigos, só eu, filho de professores, que tinha alguma intimidade com os livros. Ele sabia ler a si mesmo. Soube, de alguém informado, que ele traduziu-se. Foi morar em outro país.
Eu acho mesmo que ele está em outro planeta, desses que só trabalham à noite e descansam durante o dia. Era mais o estilo dele.
quinta-feira, 20 de julho de 2017
Areia
Clara esperou por Peu por meses. Quantos? Ela, mesmo com pouco tempo de estudo, sabia até o número de horas. Eu perdi as contas. Não se calcula grãos de areia. Ela ficava na beira da praia esperando, mesmo sabendo que Peu poderia vir por outro cais. O Sol mudava de posição e Clara ficava lá, no mesmo lugar. Parecia um personagem de Jorge Amado, tema de música de Dorival Caymmi.
A mulher, que usava vestidos rotos, lavava o cabelo todos os dias. Reclamava da quantidade de areia na cabeça. Após essa limpeza capilar, ela ia para a praia esperar por Peu, que não vinha. O cuidado com a limpeza dos pés também era intenso. Extremamente. Sempre que podia, tirava os muitos grãos de areia dessa parte do corpo. Como se fosse possível para quem mora perto da praia, Clara resistia em manter os pés livres de grãos de areia.
Quando o tempo decidiu, Peu chegou. Ele estava diferente. Não era só a barba grande e o pequeno número de peixes na rede. Clara não sabia o porquê, mas ele estava diferente. Quem está sempre igual sente as mudanças.
Depois da chegada de Peu, os dois voltaram para a vida simples que levavam naquela modesta comunidade de pescadores, em um desses locais que o Brasil ainda esconde.
Estava tudo igual. A mesma rotina: Peu pescava e Clara cuidava das coisas, da casa. Mas Peu estava diferente. Às vezes, ele falava sobre a última longa viagem de barco, sobre o que viu em grandes cidades. Clara sentia um misto de encantamento e medo. Os dois se parecem, mesmo.
Um dia, Peu limpava peixes e Clara lavava os pés, após lavar o cabelo. Ela disse para ele que iria à praia e o pediu para esperar em casa. Sem muito rumo, mas com alguma direção, Clara saiu andando pelas areias. Sujando os pés que acabara de limpar. O vento também levou areia para os cabelos. Clara nem sentiu a quantidade de grãos que tinha cabeça e continuou andando em frente, sujando os pés.
A mulher, que usava vestidos rotos, lavava o cabelo todos os dias. Reclamava da quantidade de areia na cabeça. Após essa limpeza capilar, ela ia para a praia esperar por Peu, que não vinha. O cuidado com a limpeza dos pés também era intenso. Extremamente. Sempre que podia, tirava os muitos grãos de areia dessa parte do corpo. Como se fosse possível para quem mora perto da praia, Clara resistia em manter os pés livres de grãos de areia.
Quando o tempo decidiu, Peu chegou. Ele estava diferente. Não era só a barba grande e o pequeno número de peixes na rede. Clara não sabia o porquê, mas ele estava diferente. Quem está sempre igual sente as mudanças.
Depois da chegada de Peu, os dois voltaram para a vida simples que levavam naquela modesta comunidade de pescadores, em um desses locais que o Brasil ainda esconde.
Estava tudo igual. A mesma rotina: Peu pescava e Clara cuidava das coisas, da casa. Mas Peu estava diferente. Às vezes, ele falava sobre a última longa viagem de barco, sobre o que viu em grandes cidades. Clara sentia um misto de encantamento e medo. Os dois se parecem, mesmo.
Um dia, Peu limpava peixes e Clara lavava os pés, após lavar o cabelo. Ela disse para ele que iria à praia e o pediu para esperar em casa. Sem muito rumo, mas com alguma direção, Clara saiu andando pelas areias. Sujando os pés que acabara de limpar. O vento também levou areia para os cabelos. Clara nem sentiu a quantidade de grãos que tinha cabeça e continuou andando em frente, sujando os pés.
domingo, 9 de abril de 2017
Bandolim
Ela só toca bandolim sozinha. Toca de frente para o espelho, para ter certeza de que é sua única espectadora. Seus cabelos cacheados dançam. Não sei se por causa da música ou do vento que entra pela janela aberta. Acho que é a música. O som é tão lindo quanto os cabelos dela. Ela só toca bandolim sozinha, mas a janela está aberta e eu moro no prédio em frente.
segunda-feira, 6 de março de 2017
Perpétua
Diariamente, ela era assombrada por fantasmas. Ou seriam memórias? Não dava para saber. O barulho era o mesmo. As paredes se desarrumavam, não dava para organizar nada. Um furacão por dia entrava sem pedir licença pelos cômodos. As noites ficaram sem medidas. Trocou de casa.
O assombro chegou ao trabalho. Como se não bastasse o inferno que já era. O inferno nunca acaba. A mesa se desarrumava, os papeis sumiam, as contas não fechavam e as janelas se abriam, batendo mais forte que a vida. O salário quase nunca compensa. Trocou de trabalho.
E foi trocando de tudo, pois tudo onde estava era tomado por essa força estranha, devastadora.
Exceto a chegada das cartas e o caminho diferente, nada mudava. As trocas não haviam mudado nada.
Então, ela decidiu transar com seus fantasmas, ou memórias, e foi feliz por toda a eternidade. Perpétua era o nome da moça.
O assombro chegou ao trabalho. Como se não bastasse o inferno que já era. O inferno nunca acaba. A mesa se desarrumava, os papeis sumiam, as contas não fechavam e as janelas se abriam, batendo mais forte que a vida. O salário quase nunca compensa. Trocou de trabalho.
E foi trocando de tudo, pois tudo onde estava era tomado por essa força estranha, devastadora.
Exceto a chegada das cartas e o caminho diferente, nada mudava. As trocas não haviam mudado nada.
Então, ela decidiu transar com seus fantasmas, ou memórias, e foi feliz por toda a eternidade. Perpétua era o nome da moça.
domingo, 15 de janeiro de 2017
Brecha
Minha filha Marina e eu estávamos trancados há semanas naquele cômodo escuro e fedido. O único rebento de luz entrava através de um pequeno buraco (uma brecha) na porta de ferro. Era pela mesma brecha que, uma vez por dia, os sequestradores nos entregavam comida. Os pratos sempre vinham fartos e acompanhados por deliciosas porções de batatas fritas. Eram divinas as batatas. Nunca havia comido algo tão bom. De verdade. Não era ilusão ou fome de cárcere. Eram mesmo deliciosas as batatas. A vida é mesmo difícil de entender. Em momentos de veemente dificuldade, ela nos concede prazeres enérgicos.
Uma manhã, após muitas porções de batatas fritas, Marina, cujo sono cabia em meus braços, levantou espantada e me perguntou que luz era aquela que enchia o cômodo pouco arejado. Ainda sonolento, fraco, respondi: “É só a luz do Sol, Marina. É só a luz do Sol”.
Foi então que me dei conta que uma janela, não muito alta, presente em uma das quatro paredes do cômodo, estava aberta. Ancorei Marina nos ombros e fugi. Me senti um vencedor por salvar minha filha daquela situação. Danem-se as batatas, danem-se as batatas, eu pensei.
Uma manhã, após muitas porções de batatas fritas, Marina, cujo sono cabia em meus braços, levantou espantada e me perguntou que luz era aquela que enchia o cômodo pouco arejado. Ainda sonolento, fraco, respondi: “É só a luz do Sol, Marina. É só a luz do Sol”.
Foi então que me dei conta que uma janela, não muito alta, presente em uma das quatro paredes do cômodo, estava aberta. Ancorei Marina nos ombros e fugi. Me senti um vencedor por salvar minha filha daquela situação. Danem-se as batatas, danem-se as batatas, eu pensei.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
Janelas altas
Os feudos em guerra, as pessoas ao chão, embaixo da terra. E o rei em seu palácio de janelas altas só enxergava o que não víamos.
Foram tempos difíceis, pouco se tinha para comer e vestir. Menos ainda para amar. Períodos brutos formam sujeitos brutos. Está escrito.
O rei, em seu palácio de janelas altas, só enxergava o que não víamos. Só enxergava o que queria. Nem todo mundo tem querer. É assim desde sempre.
Delirantes eram as doenças. Quase democráticas, levavam crianças, jovens, adultos e idosos. Eu sobrevivi. Ou sobrei. Às vezes dá no mesmo. Pude ver o novo. Não se garante que é bom, mas é novo.
O reinado acabou. As janelas altas baixaram, as portas subiram. O rei saiu. Foi tirado - tirano. Achávamos: “agora ele vai ver o que vemos”. Estávamos errados. Aprendemos que não podíamos sonhar muito, precisávamos estar de olhos abertos para realizar.
O rei saiu do palácio de janelas altas, entretanto, continuou sem ver o mundo. O rei nunca aprendeu a enxergar.
Foram tempos difíceis, pouco se tinha para comer e vestir. Menos ainda para amar. Períodos brutos formam sujeitos brutos. Está escrito.
O rei, em seu palácio de janelas altas, só enxergava o que não víamos. Só enxergava o que queria. Nem todo mundo tem querer. É assim desde sempre.
Delirantes eram as doenças. Quase democráticas, levavam crianças, jovens, adultos e idosos. Eu sobrevivi. Ou sobrei. Às vezes dá no mesmo. Pude ver o novo. Não se garante que é bom, mas é novo.
O reinado acabou. As janelas altas baixaram, as portas subiram. O rei saiu. Foi tirado - tirano. Achávamos: “agora ele vai ver o que vemos”. Estávamos errados. Aprendemos que não podíamos sonhar muito, precisávamos estar de olhos abertos para realizar.
O rei saiu do palácio de janelas altas, entretanto, continuou sem ver o mundo. O rei nunca aprendeu a enxergar.
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
No fundo
No fundo do copo. No fundo do prato. No fundo do poço. Ela me olhou e foi embora pela porta dos fundos. Deixou as gavetas abertas, vazias. No fundo, eu achei que iria durar mais tempo. Para sempre é só um momento, é o que deveriam dizer desde sempre. Fui ultrapassado. Ela, agora, está longe. Não adianta ir atrás.
“Por que está me contando essas coisas?”, disse, com raiva, a outra.
Porque a encontrei dias atrás. Eu estava no fundo de um bar. Ou de um cinema. Os lugares que eu ia com ela não importam. A chuva molhava minhas meias e isso me deprime. Mas não sei se era bem a chuva.
“E o que aconteceu?”, questionou, já se levantando da cadeira, a outra.
Ela saiu pela porta da frente sem me olhar e desarrumar nada. Então entendi o motivo: as coisas mudaram. As coisas mudam em qualquer situação.
“Por que está me contando essas coisas?”, disse, com raiva, a outra.
Porque a encontrei dias atrás. Eu estava no fundo de um bar. Ou de um cinema. Os lugares que eu ia com ela não importam. A chuva molhava minhas meias e isso me deprime. Mas não sei se era bem a chuva.
“E o que aconteceu?”, questionou, já se levantando da cadeira, a outra.
Ela saiu pela porta da frente sem me olhar e desarrumar nada. Então entendi o motivo: as coisas mudaram. As coisas mudam em qualquer situação.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Lei do silêncio
Afogou as palavras num gole só. Nem precisava, não tinha mesmo com quem falar. Até tinha, mas não eram as pessoas apropriadas. Têm certas coisas que só devemos falar para certas pessoas. Não estava bem. Estava em um bar cheio, em uma mesa vazia. Isso nem é metáfora. Minutos depois, a mesa encheu de gente, amigos. Acabou a poesia, começaram as gargalhadas. Agora tinha com quem falar. Só não havia quem ouvisse. Os outros, sempre os outros, estavam com as bocas cheias de palavras e os ouvidos em silêncio.
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Guitarra dos sonhos
Daniel é um rock star. Guitarrista. Bebe todas, come tudo. Vice e versa. Quem não quer ser um rock star? Ainda é o melhor emprego do mundo. Qualquer bobagem que eles criam é sucesso. Diferente dos escritores, que qualquer sucesso é bobagem.
O guitarrista não tem noites de sono. Nem precisa. Sonhar para quê? Já é rico, realizado profissionalmente, querido pela família, cheio de amigos e não votaria no Bolsonaro. “Melhor pessoa”, como as pessoas dizem por aí.
Daniel dorme de dia. Às seis da madrugada o celular desperta. Que susto! Que merda... Era tudo um sonho. Sonhar para quê? Daniel tinha era que acordar para chegar cedo à lanchonete. E não é para tocar. É para trabalhar. “O rock star agora é lenda”. O rock star é balconista.
A história toda de fama, dinheiro, reconhecimento, boas energias e diversão ilimitada era só ilusão. Só sonho. Mas nunca é só. Sempre tem mais. Um mas a mais.
Não gostava do trabalho, mas precisava da grana. Não gostava muito da vida “burocrática” que levava, mas precisava levar essa vida até que ela o levasse a algum lugar melhor. Mas Daniel era guitarrista. Dormindo e acordado. E dos bons. Dormindo era melhor, mas era dos bons.
O jovem rapaz caminha triste pelas ruas da grande cidade. No caminho para o trabalho, ele passa por uma loja de instrumentos musicais. Pela vitrine, ainda meio fechada, ele namora a guitarra dos sonhos. Sorri feliz. Acordando para a vida, Daniel volta a sonhar.
O guitarrista não tem noites de sono. Nem precisa. Sonhar para quê? Já é rico, realizado profissionalmente, querido pela família, cheio de amigos e não votaria no Bolsonaro. “Melhor pessoa”, como as pessoas dizem por aí.
Daniel dorme de dia. Às seis da madrugada o celular desperta. Que susto! Que merda... Era tudo um sonho. Sonhar para quê? Daniel tinha era que acordar para chegar cedo à lanchonete. E não é para tocar. É para trabalhar. “O rock star agora é lenda”. O rock star é balconista.
A história toda de fama, dinheiro, reconhecimento, boas energias e diversão ilimitada era só ilusão. Só sonho. Mas nunca é só. Sempre tem mais. Um mas a mais.
Não gostava do trabalho, mas precisava da grana. Não gostava muito da vida “burocrática” que levava, mas precisava levar essa vida até que ela o levasse a algum lugar melhor. Mas Daniel era guitarrista. Dormindo e acordado. E dos bons. Dormindo era melhor, mas era dos bons.
O jovem rapaz caminha triste pelas ruas da grande cidade. No caminho para o trabalho, ele passa por uma loja de instrumentos musicais. Pela vitrine, ainda meio fechada, ele namora a guitarra dos sonhos. Sorri feliz. Acordando para a vida, Daniel volta a sonhar.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Um mundo
Desde criança, ela era engenheira da própria vida. Engenheira, não, arquiteta, pois é mais poético. Ela criou um mundo próprio, paralelo e bem melhor que o mundo do mundo, onde as pessoas precisam sobreviver e tentam viver.
Cresceu assim e o universo de brinquedos se tornou um reino de livros, filmes, pensamentos e canções. Também havia espaço para a tristeza. Era democrática. Contudo, lhe faltava alguém para dividir esse planeta pessoal. "Cada um de nós é um universo,Pedro". Universos são grandes. Pedros, nem sempre.
Foi assim que ele entrou na vida dela. Entrou pelo mundo do mundo, por uma porta comum que estava aberta. Uma porta que sempre esteve aberta: a porta do coração.
Ele também tinha o mundo dele; todos temos. Ele era do tipo que não ligava muito para isso. Gostava do mundo do mundo. Achava que era mais livre lá do que poderia ser em um infinito particular.
Foi morar no mundo dela. Foi por amor. Fez questão de não mexer em nada. Ficou morando do lado esquerdo do peito por três anos. Era um bom lugar. Atraente por fora. Lindo por dentro. Bem arejado, aquecido nos tempos frios.
Apesar disso tudo, foi nesse mesmo lugar que ele começou a se sentir apertado. Preso. Pouco livre. Quase livre, na verdade. Ser quase livre pode ser pior que ser totalmente preso. Às vezes, quase é nada. Tudo o que não precisamos.
Ele resolveu ir embora. Falou para ela que não estava se sentindo bem, estava sem ar, sufocado. Ela chorou. Ele partiu. A ordem não importa muito nessas horas.
Ela tentou argumentar, falou para ele que havia lhe dado um mundo. Um mundo! Um mundo que antes era só dela. Como pode ele se sentir preso tendo um mundo só para ele? Ele respondeu que para muita gente, um mundo é pouco. Muito pouco.
Cresceu assim e o universo de brinquedos se tornou um reino de livros, filmes, pensamentos e canções. Também havia espaço para a tristeza. Era democrática. Contudo, lhe faltava alguém para dividir esse planeta pessoal. "Cada um de nós é um universo,Pedro". Universos são grandes. Pedros, nem sempre.
Foi assim que ele entrou na vida dela. Entrou pelo mundo do mundo, por uma porta comum que estava aberta. Uma porta que sempre esteve aberta: a porta do coração.
Ele também tinha o mundo dele; todos temos. Ele era do tipo que não ligava muito para isso. Gostava do mundo do mundo. Achava que era mais livre lá do que poderia ser em um infinito particular.
Foi morar no mundo dela. Foi por amor. Fez questão de não mexer em nada. Ficou morando do lado esquerdo do peito por três anos. Era um bom lugar. Atraente por fora. Lindo por dentro. Bem arejado, aquecido nos tempos frios.
Apesar disso tudo, foi nesse mesmo lugar que ele começou a se sentir apertado. Preso. Pouco livre. Quase livre, na verdade. Ser quase livre pode ser pior que ser totalmente preso. Às vezes, quase é nada. Tudo o que não precisamos.
Ele resolveu ir embora. Falou para ela que não estava se sentindo bem, estava sem ar, sufocado. Ela chorou. Ele partiu. A ordem não importa muito nessas horas.
Ela tentou argumentar, falou para ele que havia lhe dado um mundo. Um mundo! Um mundo que antes era só dela. Como pode ele se sentir preso tendo um mundo só para ele? Ele respondeu que para muita gente, um mundo é pouco. Muito pouco.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Êta mundo bom
Anderson não faz o tipo solitário e triste que os escritores adoram destacar nas histórias. Contudo, é um rapaz de amizades limitadas. Não que seja um sujeito antissocial. O problema dele é que se limita ao bairro onde mora. Mora é pouco: ele vive. Até conhece e, às vezes, frequenta outras partes da cidade, entretanto, sempre tenta voltar o mais rápido possível para suas fronteiras.
Tem alguns amigos fieis e não menos provincianos. Ana, a ex-namorada, que não foi fiel. Nem provinciana. Traiu Anderson com um cara da zona nobre do munícipio. Um morador da orla. Anderson ficou inundado de ódio. Tempestade na alma. Chorou como quem chovia. Pensou em ir tirar satisfação com o corneador, só que o play boy morava em um território que ele não conhecia. Jogar fora de casa é meio complicado mesmo.
Luiz, um dos poucos conhecidos de Anderson que curtia expandir os horizontes, apostou com os parceiros que agora, depois da traição, Anderson iria mudar a forma de agir, iria ser um cara mais ligado no resto do mundo, menos restrito ao mundinho que o cerca. Nada como um chifre para abrir a cabeça de um homem. Luiz perdeu a aposta. Anderson, após descobrir o par de galhos, ficou, definitivamente, na toca.
O problema é a vida. Anderson precisava sair de casa para trabalhar. Auxiliar administrativo em um escritório de advocacia no bairro vizinho, o bandeirante às avessas sempre sentava no mesmo lugar no ônibus: do lado do motorista, no terceiro banco, na janela. A rotina, a mesma que costuma esfriar as paixões mais fumegantes, não apagou da cabeça do rapaz a imagem de Ana. “Filha da puta”, ele pensava.
Manhã de Sol, Anderson entrou no ônibus para um dia de labuta e percebeu que o coletivo estava mais cheio que o normal. O motorista explicou que agora, aquela linha esticaria o percurso até à praia. O rapaz não seria prejudicado, pois o prédio no qual trabalhava era bem antes da orla, mas ficou incomodado porque seu lugar e todos os outros do mesmo lado do veículo estavam ocupados. Sentou no outro extremo.
Olhando pela janela, viu, ao longo do caminho, casas, prédios, carros, pessoas que ele nunca havia visto. Tudo estava ali, ao alcance dos olhos, embaixo do nariz, e ele nunca notou. Notou mesmo foi uma moça. Linda moça. Daquelas que fazem o trânsito andar devagar e a vida depressa. Ela lavava uma calçada com a leveza e o desejo de quem toma um banho. Depois disso, Anderson passou a sentar nos assentos do outro lado ônibus. Qualquer assento, desde que fosse do lado da calçada da moça. Algo mudou.
Tem alguns amigos fieis e não menos provincianos. Ana, a ex-namorada, que não foi fiel. Nem provinciana. Traiu Anderson com um cara da zona nobre do munícipio. Um morador da orla. Anderson ficou inundado de ódio. Tempestade na alma. Chorou como quem chovia. Pensou em ir tirar satisfação com o corneador, só que o play boy morava em um território que ele não conhecia. Jogar fora de casa é meio complicado mesmo.
Luiz, um dos poucos conhecidos de Anderson que curtia expandir os horizontes, apostou com os parceiros que agora, depois da traição, Anderson iria mudar a forma de agir, iria ser um cara mais ligado no resto do mundo, menos restrito ao mundinho que o cerca. Nada como um chifre para abrir a cabeça de um homem. Luiz perdeu a aposta. Anderson, após descobrir o par de galhos, ficou, definitivamente, na toca.
O problema é a vida. Anderson precisava sair de casa para trabalhar. Auxiliar administrativo em um escritório de advocacia no bairro vizinho, o bandeirante às avessas sempre sentava no mesmo lugar no ônibus: do lado do motorista, no terceiro banco, na janela. A rotina, a mesma que costuma esfriar as paixões mais fumegantes, não apagou da cabeça do rapaz a imagem de Ana. “Filha da puta”, ele pensava.
Manhã de Sol, Anderson entrou no ônibus para um dia de labuta e percebeu que o coletivo estava mais cheio que o normal. O motorista explicou que agora, aquela linha esticaria o percurso até à praia. O rapaz não seria prejudicado, pois o prédio no qual trabalhava era bem antes da orla, mas ficou incomodado porque seu lugar e todos os outros do mesmo lado do veículo estavam ocupados. Sentou no outro extremo.
Olhando pela janela, viu, ao longo do caminho, casas, prédios, carros, pessoas que ele nunca havia visto. Tudo estava ali, ao alcance dos olhos, embaixo do nariz, e ele nunca notou. Notou mesmo foi uma moça. Linda moça. Daquelas que fazem o trânsito andar devagar e a vida depressa. Ela lavava uma calçada com a leveza e o desejo de quem toma um banho. Depois disso, Anderson passou a sentar nos assentos do outro lado ônibus. Qualquer assento, desde que fosse do lado da calçada da moça. Algo mudou.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Partida
Saiu de casa pela manhã já pensando no regresso, no fim da tarde. Não que não gostasse do trabalho na repartição pública, no centro da cidade, a duas horas da casa onde vivia no subúrbio. Apesar de o trabalho empobrecer o homem, no caso de Carlos, torcedor fanático de um time da quarta divisão, a labuta rendia uma vida bem melhor que a vida que ele teve quase a vida toda. Morava sozinho. Não tinha parentes próximos. Introspectivo, nem pelos vizinhos fofoqueiros era notado. Teve umas paixões na juventude, mas amava mesmo era aquele time de futebol. O amor é a paixão que nunca morre. E naquela noite, seu grande amor iria vir a campo. Na decisão da quarta divisão. Se ganhasse o jogo, subia para a terceira. Em caso de derrota, amargaria mais um ano no inferno futebolístico.
Na repartição, fez o que tinha que fazer com o foco e a eficiência de sempre. Era muito querido por ser um bom funcionário. Separou papeis, ajeitou cadastros, carimbou documentos. No entanto, seu coração e cabeça estavam no interior do país, onde seu time faria o jogo decisivo mais tarde. Quando os jogos são na cidade onde reside, Carlos vai a todos. Já foi até a outros munícipios acompanhar a equipe. Contudo, essa partida, marcada para 21h, no outro lado do país, se tornou inviável para o apaixonado torcedor.
Carlos saiu da repartição no mesmo horário de sempre: 17h. Normalmente, leva duas horas para chegar em casa. Tempo perfeito. Chegaria com horas de sobra para comer algo e se preparar, como se fosse um jogador, para o conflito decisivo. Porém, a situação não foi tão fácil assim.
O torcedor pegou um engarrafamento fora do normal. Ou o engarrafamento o pegou. Piadas ruins à parte, Carlos não estava achando a menor graça naquilo tudo. Levantou-se do assento do ônibus e pediu para o motorista abrir a porta. Estava decido a tomar outro caminho. Afinal, já eram 19h. O condutor do veículo avisou que não era uma boa ideia, pois um protesto de grande porte havia tomado conta de boa parte da cidade e os ânimos estavam aflorados. A população estava revoltada com o prefeito e os conflitos entre manifestantes e policiais se fizeram dignos de um clássico regional em final de campeonato internacional.
Carlos não quis nem saber. Sua opção política, religião, e revolução eram seu time. Desceu do coletivo e se meteu pelas ruas do centro, tentando achar uma condução para o bairro onde mora. Sem sucesso. Pontos de ônibus quebrados, veículos incendiados, estações de metrô e comércios fechados. Carlos passou a se preocupar. Já eram 20h.
Inclusive, o relógio que Carlos tanto olhava entrou no problema. Em meio aos conflitos entre policiais e manifestantes, algumas pessoas se aproveitaram para fazer saques. Flutuando pelas ruas, atônito, Carlos foi vítima de um desses aproveitadores. O homem passou e levou sua carteira, celular e relógio. Carlos foi roubado. Situação que lhe lembrou o campeonato de 1979, quando seu time caiu por erros de arbitragem.
Foi então que Carlos se enfureceu. Sabendo que poderia não conseguir assistir o jogo mais importante da história do clube do coração em décadas, ele se transformou numa espécie extremamente violenta: o zagueiro brucutu. Junto com os manifestantes mais exaltados, Carlos quebrou lojas, repartições públicas e encheu um carro de polícia de pedras. O relógio da região central da cidade já marcava 22h30. Como estaria o jogo? Carlos se questionava enquanto acendia um coquetel molotov. Carlos foi detido por três policias. Carlos foi preso.
O relógio da delegacia indicava meia noite. O jogo já havia acabado. Carlos estava acabado: sujo, machucado e, principalmente, sem saber o resultado da decisiva partida. O delegado olhou para Carlos, que estava sem documentos e sem muitos motivos para se defender, e disse: “Apesar de não merecer, considerando sua idade e a história que contou sobre o roubo dos documentos, o senhor tem direito a um telefonema”.
Carlos foi ao telefone, discou um número e perguntou: “Quanto foi o jogo?”.
Na repartição, fez o que tinha que fazer com o foco e a eficiência de sempre. Era muito querido por ser um bom funcionário. Separou papeis, ajeitou cadastros, carimbou documentos. No entanto, seu coração e cabeça estavam no interior do país, onde seu time faria o jogo decisivo mais tarde. Quando os jogos são na cidade onde reside, Carlos vai a todos. Já foi até a outros munícipios acompanhar a equipe. Contudo, essa partida, marcada para 21h, no outro lado do país, se tornou inviável para o apaixonado torcedor.
Carlos saiu da repartição no mesmo horário de sempre: 17h. Normalmente, leva duas horas para chegar em casa. Tempo perfeito. Chegaria com horas de sobra para comer algo e se preparar, como se fosse um jogador, para o conflito decisivo. Porém, a situação não foi tão fácil assim.
O torcedor pegou um engarrafamento fora do normal. Ou o engarrafamento o pegou. Piadas ruins à parte, Carlos não estava achando a menor graça naquilo tudo. Levantou-se do assento do ônibus e pediu para o motorista abrir a porta. Estava decido a tomar outro caminho. Afinal, já eram 19h. O condutor do veículo avisou que não era uma boa ideia, pois um protesto de grande porte havia tomado conta de boa parte da cidade e os ânimos estavam aflorados. A população estava revoltada com o prefeito e os conflitos entre manifestantes e policiais se fizeram dignos de um clássico regional em final de campeonato internacional.
Carlos não quis nem saber. Sua opção política, religião, e revolução eram seu time. Desceu do coletivo e se meteu pelas ruas do centro, tentando achar uma condução para o bairro onde mora. Sem sucesso. Pontos de ônibus quebrados, veículos incendiados, estações de metrô e comércios fechados. Carlos passou a se preocupar. Já eram 20h.
Inclusive, o relógio que Carlos tanto olhava entrou no problema. Em meio aos conflitos entre policiais e manifestantes, algumas pessoas se aproveitaram para fazer saques. Flutuando pelas ruas, atônito, Carlos foi vítima de um desses aproveitadores. O homem passou e levou sua carteira, celular e relógio. Carlos foi roubado. Situação que lhe lembrou o campeonato de 1979, quando seu time caiu por erros de arbitragem.
Foi então que Carlos se enfureceu. Sabendo que poderia não conseguir assistir o jogo mais importante da história do clube do coração em décadas, ele se transformou numa espécie extremamente violenta: o zagueiro brucutu. Junto com os manifestantes mais exaltados, Carlos quebrou lojas, repartições públicas e encheu um carro de polícia de pedras. O relógio da região central da cidade já marcava 22h30. Como estaria o jogo? Carlos se questionava enquanto acendia um coquetel molotov. Carlos foi detido por três policias. Carlos foi preso.
O relógio da delegacia indicava meia noite. O jogo já havia acabado. Carlos estava acabado: sujo, machucado e, principalmente, sem saber o resultado da decisiva partida. O delegado olhou para Carlos, que estava sem documentos e sem muitos motivos para se defender, e disse: “Apesar de não merecer, considerando sua idade e a história que contou sobre o roubo dos documentos, o senhor tem direito a um telefonema”.
Carlos foi ao telefone, discou um número e perguntou: “Quanto foi o jogo?”.
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