quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Mapa astral

Lerdão, como ele era chamado, subia na laje e olhava o céu. "Os planetas só trabalham de noite. De dia, eles descansam", dizia ele. Não era muito informado. Nunca fez curso fora. Quem se importa. Era tão gente boa que quase sempre bebia de graça no bar da esquina do beco.

De uma noite para outra, sumiu. Procuramos, preocupados, por um tempo. Depois a procura passou. A preocupação nunca foi embora. Falam que ele disse que queria mudar de vida. Só que isso é óbvio para qualquer favelado.

Ele não era muito de leitura, na verdade, de todos os amigos, só eu, filho de professores, que tinha alguma intimidade com os livros. Ele sabia ler a si mesmo. Soube, de alguém informado, que ele traduziu-se. Foi morar em outro país.

Eu acho mesmo que ele está em outro planeta, desses que só trabalham à noite e descansam durante o dia. Era mais o estilo dele.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Rock errou

Antes de qualquer coisa vem a introdução. É sempre bom lembrar que Rock’n Roll é muito mais que um gênero musical. Rock é estilo de vida, filosofia, religião, tudo em alto e bom som.

Agora, vamos aos versos: para acompanhar primos e amigos, acabei indo para uma noitada eclética, dessas que tocam os ritmos musicais da moda e têm cerveja barata - o que é ótimo. Como não é meu principal ambiente de atuação, ativei o modo observação. Funcionou bem. Observei algo interessante.

Fui de camisa rosa, achando que estaria mais enquadrado ao ambiente. Logo reparei que a maioria esmagadora dos presentes usava preto. Tudo bem, pode ser a cor da moda, boa para usar à noite.

Também pude notar o elevado número de pessoas com tatuagens expostas. Além disso, jaquetas de couro e barba cumprida entre os homens era praxe. Muitos cabelos bagunçados de propósito. Fui até no banheiro desajeitar o meu.

Nas mulheres, alargadores, piercings, botas. Subiu ao palco uma dupla sertaneja universitária e um dos integrantes tinha uma guitarra com a madeira intencionalmente danificada. E ele fazia caras e bocas na hora de solar. Até pensei em bater cabeça.

Em lojas de departamento, dessas que vendem roupas quase em escala industrial, existem muitas camisas de bandas clássicas do Rock. E quem compra, nem sempre, sabe do que se trata. Devem achar que Ramones é grife - deveria ser. Let’s go.

Quando foi que se vestir como roqueiro virou moda? Na época da escola, eu transitava entre os amigos do Rock e os populares. A galera rock’n roll, que ficava sempre no canto do pátio, era um pouco renegada por alguns dos famosos do colégio.

Onde eu quero chegar com esse texto? Não quero chegar a lugar nenhum. Isso é uma crônica, não um veículo de transporte. Todavia, é fato que o visual rock’n roll tomou conta de um público que, por muito tempo, o tratou como esquisitice. O Rock in Rio, evento que muita gente quer ir só pelo evento em si, mesmo não sendo fã de nenhuma atração, é uma confirmação disso. E isso já aconteceu em muitos outros casos. Inclusive com o próprio Rock, em décadas passadas, que passou de febre geral a gênero musical de poucos. A humanidade é mesmo previsível e surpreendente, como um bom solo de guitarra.

Acorde final: cada um se veste do jeito que quiser, adota o estilo que achar melhor, é óbvio. O texto é só uma observação.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Despertadores ao contrário

Os grilos lá longe. A chuva no teto. Ventilador aos pés. Nas folhas, o vento. Nos galhos, os pássaros. Bob Dylan no fone. Você dormindo, respirando, do meu lado.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Areia

Clara esperou por Peu por meses. Quantos? Ela, mesmo com pouco tempo de estudo, sabia até o número de horas. Eu perdi as contas. Não se calcula grãos de areia. Ela ficava na beira da praia esperando, mesmo sabendo que Peu poderia vir por outro cais. O Sol mudava de posição e Clara ficava lá, no mesmo lugar. Parecia um personagem de Jorge Amado, tema de música de Dorival Caymmi.

A mulher, que usava vestidos rotos, lavava o cabelo todos os dias. Reclamava da quantidade de areia na cabeça. Após essa limpeza capilar, ela ia para a praia esperar por Peu, que não vinha. O cuidado com a limpeza dos pés também era intenso. Extremamente. Sempre que podia, tirava os muitos grãos de areia dessa parte do corpo. Como se fosse possível para quem mora perto da praia, Clara resistia em manter os pés livres de grãos de areia.

Quando o tempo decidiu, Peu chegou. Ele estava diferente. Não era só a barba grande e o pequeno número de peixes na rede. Clara não sabia o porquê, mas ele estava diferente. Quem está sempre igual sente as mudanças.

Depois da chegada de Peu, os dois voltaram para a vida simples que levavam naquela modesta comunidade de pescadores, em um desses locais que o Brasil ainda esconde.

Estava tudo igual. A mesma rotina: Peu pescava e Clara cuidava das coisas, da casa. Mas Peu estava diferente. Às vezes, ele falava sobre a última longa viagem de barco, sobre o que viu em grandes cidades. Clara sentia um misto de encantamento e medo. Os dois se parecem, mesmo.

Um dia, Peu limpava peixes e Clara lavava os pés, após lavar o cabelo. Ela disse para ele que iria à praia e o pediu para esperar em casa. Sem muito rumo, mas com alguma direção, Clara saiu andando pelas areias. Sujando os pés que acabara de limpar. O vento também levou areia para os cabelos. Clara nem sentiu a quantidade de grãos que tinha cabeça e continuou andando em frente, sujando os pés.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Crônica de tempo e vento

Ela era explosiva. Eu, paz e amor. Amava-me no volume máximo. Para mim, melhor no escuro. Se ela guiava para o cinema, eu andava pelos livros. Mas também fazíamos caminhos inversos.

Rio-São Paulo, ponte aérea que o tempo e o vento não levam. Enquanto ela lia Érico, eu folheava Luis Fernando. Estávamos em casa, já éramos uma família.

Ela, shopping lotado. Eu, torcida organizada no Maracanã. Sempre chegava na hora. Já os meus relógios constantemente atrasavam.

Quando eu tinha o cabelo mais cumprido, era o dela, corte Chanel, que o vento chamava para dançar. Não tiro a razão dele, o vento. Eu fazia o mesmo quando nós dois éramos um só, deitados na vida. E éramos um só. Sempre fomos. Até quando estávamos diferentes.

Hoje, tenho entradas de calvíce. Uso relógios que meu pai usava. Esses não atrasam mais. Mas agora é tarde. Perdi a hora. Dela, sei quase nada. De vez em quando bate um vento frio na cabeça, aquece a memória e só. E só. Deu minha hora.