segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Tem certeza?

Por que tantas certezas e tão poucas dúvidas?
A certeza imutável é sempre um ponto final.

Onde estão os pontos de interrogação da sapiência?
Os pontos de interrogação são os guarda-chuvas da consciência

Onde vão parar os guarda-chuvas que perdemos?
Quando achar uma explicação muito definitiva, desconfie

Pelos caminhos incertos, eu quero sempre andar
A única certeza que quero é a vontade de duvidar.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Força, Chape

Talvez a única coisa boa nessa tragédia toda envolvendo o voo da equipe da Chapecoense seja a solidariedade que a grande maioria das pessoas tem manifestado. Em um país onde quase todo mundo se divide e briga por quase tudo, ver essa união é, dentro de uma situação infinitamente triste, até animador.

O elenco da Chapecoense, de modo geral, era formado por jogadores que nunca foram protagonistas em outros times. Tinha um técnico considerado talentoso, mas ainda não um "vitorioso". Um clube jovem, que vivia seu maior momento, após uma ascensão louvável. Jornalistas (alguns com os quais eu cheguei a conviver) que iam cobrir uma grande história. Uma das maiores dos últimos tempos. Todos viviam um sonho e sonhos são ótimos para aliviar a dor. Que fiquem, acima de tudo, as boas lembranças dos se foram nesse momento trágico.

O futebol - assim como os sonhos - ajuda a melhorar a vida. Que ele também nos ajude agora. Que faça com que sejamos cada vez mais solidários, humanos e que valorizemos as pessoas enquanto estão perto de nós.

sábado, 22 de outubro de 2016

Vítima

Quase foi jogador profissional de vôlei, mas não conseguiu porque, segundo ele, nesse esporte só se dá bem quem tem QI - quem indica. Embora tivesse um metro e meio de altura, pensava assim. Grande QI.

Mais velho, quase foi professor de educação física, mas não conseguiu porque, segundo ele, nessa área tem muita burocracia. Porém, nem terminou o ensino médio. Grande QI.

Tempos depois, quase foi dono de restaurante, mas não conseguiu porque, segundo ele, nessa área tem muita panela (literal e não literalmente) e as pessoas não recebem bem gente nova. Já tinha até dinheiro guardado para começar. Juntou R$ 300 e achava o suficiente para abrir um estabelecimento de alto nível.

Na mesma época, quase foi o melhor vendedor da loja roupas onde trabalhou por anos. Tirando os outros 11 vendedores, ele foi o segundo e, segundo ele, era injustiçado pelos clientes que não compravam com ele. Mesmo nos horários que ele não estava na loja.

Quase se casou. Só não subiu ao altar porque, segundo ele, a ex-namorada exagerou ao largá-lo depois da segunda traição. “Ingrata e injusta”, diz ele se referindo a ela.

Os amigos se afastaram e, segundo ele, foram babacas. “Pararam de andar comigo só porque não aceito opiniões contrárias, olhava bastante para as esposas deles e arrumava umas brigas com eles, às vezes, só às vezes”, conta a injustiça.

Um dia de domingo, ele se olhou no espelho e decidiu que tudo ia mudar. Não. Não, ele não percebeu que, às vezes, as coisas dão errado por nossa culpa, ele decidiu que, segunda-feira, iria pintar o cabelo. Pela segunda vez na vida.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Lei do silêncio

Afogou as palavras num gole só. Nem precisava, não tinha mesmo com quem falar. Até tinha, mas não eram as pessoas apropriadas. Têm certas coisas que só devemos falar para certas pessoas. Não estava bem. Estava em um bar cheio, em uma mesa vazia. Isso nem é metáfora. Minutos depois, a mesa encheu de gente, amigos. Acabou a poesia, começaram as gargalhadas. Agora tinha com quem falar. Só não havia quem ouvisse. Os outros, sempre os outros, estavam com as bocas cheias de palavras e os ouvidos em silêncio.