domingo, 25 de setembro de 2016

Festa de solteiro

Fazer aniversário estando solteiro é complicado. Não, não estou falando de não ganhar presentes bacanas, pagos em várias vezes com juros e juras de amor. Eu estou aqui para falar de festa.

Você arma aquela comemoração para juntar os amigos e, de quebra, vêm os amigados. Os cachos. Os cruzos. Os crush. Os rolos. Os enrolos. Aí, quem se enrola é você.

A festa rolando, o bar bombando, a social completa, a cerva comendo e você ali, tendo que dar atenção a dois, três - ou até mais - afetos. Haja coração, amigo!

Um caso é mais antigo, mas você sabe que o futuro não é para sempre. Todavia, merece moral, atenção, afinal, esteve ao seu lado numa fase ruim. Sempre te atende.

O outro rolo também não é tão novo, mas é menos constante, menos problema, mais amor. Por favor. Merece atendimento preferencial. Mas se você pegar ali, na frente de todo mundo, vai passar recibo de algo mais e os outros a mais vão ficar de menos com você. Certamente a cobrança vai ser alta. Vai pagar pelo que fez e pelo que não fez.

Sempre tem aquele cruzo recente. Desejo pegando fogo. Aí rola o receio da pulada de fila: se você ainda não pegou os casos antigos para não parecer que é namoro, por que pegar o cacho novo? O amor espera. Isso serve, também, para os flertes em processo de gestação. Vai nascer, pode confiar, meu bem.

A saída, pelo menos a minha, é a escapada. Você fica aqui, ali, de bar em bar, de mesa em mesa, dando atenção aos amigos e às amigas, aos casos e acasos. Na primeira brecha do destino, o ataque. “Vai no banheiro pra gente se beijar, bem lá no escurinho pra ninguém desconfiar”. É só festa, “vamos voltar para perto da galera. Que bom que você veio celebrar comigo”, sussurra o aniversariante.

Assim, você leva. Vai aqui, vai ali, garante que não vai perder nenhum contato por aí. Todo mundo ganha, parece jogo de compadre. Na volta para casa, você escolhe um para se achar. Mas sem perder os outros de vista.

Pensando bem, fazer aniversário solteiro nem é tão complicado. É questão de administrar. Ganhar um pouquinho de cada, retribuir, e não perder nada no final. Até porque, ano que vem pode ter mais.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Ela fecha os olhos

Ela fecha os olhos quando sorri. Quem fecha os olhos, olha para dentro. Ela sabe que a alegria deve ser interna.

Eu também fecho os olhos quando abro um sorriso. Mas quem se importa comigo? Os olhos dela... Isso que importa. Exporta luz aos dias.

Ela fecha os olhos quando sorri. Guarda a cena da alegria. Guarda, mas não prende. É só piscar que a felicidade se espalha.

Ela pisca para mim. Eu dou risada e fecho os olhos. Arquivo um plano na memória.
Eu lembro de uma piada. Conto. Ela sorri. Ela fecha os olhos quando sorri.

Ela fica linda quando sorri. Ela está rindo outra vez. Agora. Nem vai ler o texto que escrevi para ela. Ela fecha os olhos quando sorri.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Cachaça nacional

Em uma dessas farras olímpicas, conheci uma mina da Rússia - ela falava um português difícil, mas bebia Catuaba fácil. Dizia que adoraria que o país dela fabricasse a bebida.

Papo vai, dose vem, trocamos uma ideia boa. Muito boa. Um amigo até tentou explicar para ela que no Brasil existe uma expressão ("a coisa tá russa") para quando não vai nada bem. Ela não entendeu a frase, no entanto, pareceu entender bem o povo brasileiro.

Ela me disse que já havia vindo ao Brasil duas vezes e o que mais gostava aqui era a alegria do povo.

Disse para ela que eu, sinceramente, não consigo entender como conseguimos ser um povo tão feliz em um país com tantos problemas. Expliquei, ainda, que não sabia se essa alegria toda era boa ou ruim, por não compreender se isso nos ajuda a superar as dificuldades ou se colabora para que nunca saiamos delas.

Ela desdenhou da minha etílica reflexão e disse que a Rússia é cheia de problemas como os nossos: corrupção, violência, bebidas caras. E o fato de ser um povo menos festivo não muda em nada essa realidade. Eles, assim como nós, continuam com dificuldades. E sem Catuaba.

No dia seguinte, peguei um metrô lotado, com o ar condicionado ruim e tinha gente, dentro do vagão, fazendo piada da situação.

Agora (sóbrio), continuo sem saber se ser um povo festivo e que faz graça com quase tudo é bom ou ruim. Talvez seja os dois. Talvez só um. Talvez nenhum. Pelo menos, temos Catuaba. O que já é um bom motivo para ser feliz.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Cara ou Coroa

O rapaz, que estava em frente à coluna do muro que separa uma escola e uma entrada para uma rua sem saída, jogava uma moeda para o alto. Após o lançar do níquel, ele olhava se deu cara ou coroa. Como se fosse árbitro da própria sorte.

As pessoas passavam com pressa e roupas bonitas, balançando seus cabelos. A moda do cabelo cumprido voltou? Vou deixar o meu crescer outra vez. Quem parece que cresceu de uma vez foi o rapaz da moeda. A vida nos acaba. Vinte e poucos anos, mas com cara de muitos outros. Sem camisa, sujo e descalço, ele não tinha cara de quem tinha muitas moedas no bolso. Nem cara, nem coroa.

Eu, ainda que contrariado pela manhã, pelo despertador e pelo engarrafamento, estava indo para o trabalho que escolhi (ou aceitei), na aérea que escolhi (ou aceitei), na profissão que escolhi (ou acetei).

Poderia ser diferente. Eu poderia estar indo para outro lugar, outro caminho, outra área, outro trabalho. Eu poderia ter escolhido menos e, com isso, a vida poderia ter escolhido mais por mim. Ou não. Nós forçamos as possibilidades de escolhas ou as possibilidades nos forçam a escolher? Sempre fui favorável ao maior número de escolhas possível. Para tudo na vida. Será que posso ser assim?

O rapaz ainda estava jogando a moeda para o alto, como se estivesse buscando ajuda para escolher algo. Será que ele pode escolher tanto assim? Será que podemos escolher tanto assim?

terça-feira, 26 de julho de 2016

Abrir a lata da cabeça

Um amigo me contou que parou de beber. Disse que estava tendo uns problemas; nada com a saúde, não. A questão era de segurança mesmo. Alegou que andou cometendo uns erros, como esquecer o caminho de casa, roubar placas de trânsito, entrar em brigas de moradores de rua e ligar para ex-namorada.

Esse mesmo amigo, que agora vai ser o motorista da rodada de todas as rodadas, o Imune à Lei Seca, falou que desde que tirou o álcool da dieta, a cabeça dele abriu e ele passou a enxergar outras possibilidades de vida, de diversão.

“Tem muita coisa que a gente deixa de fazer porque está sempre pensando em tomar uma cerveja. Inclusive, ver os amigos é possível sem bebida, sabia? As pessoas veem melhor sem os efeitos do álcool”, debochou o bico seco.

A argumentação do rapaz foi ótima. Deve ter sido porque ele estava sóbrio e não enrolou a língua. Meu amigo zero álcool falou por horas de como está vivendo melhor e se divertindo mais sem encher o tanque. Ele acredita que vai bem mais longe assim. Eu respeito. Juro que não vou me afastar dele só porque ele não bebe mais.

Segundo ele, agora, sem álcool no sangue, é possível praticar mais esportes, acordar mais cedo e disposto, curtir o Sol (e não a Sol, cerveja) e até mesmo pensar melhor, ser mais racional. Uma onda meio Tim Maia sem doping.

Depois da conversa (e da ressaca), fiquei pensando e conclui que, em um ponto, o novo-sóbrio tem razão. De fato, nós deixamos de viver muitas coisas porque optamos por outras. Mas se fizéssemos o caminho inverso, não daria no mesmo? Não sei. O que sei é que escolhas nos reduzem e é muito triste saber que não posso fazer quase tudo que quero. Dá até vontade de beber para esquecer isso.

Para pensar melhor, como era hora do almoço, abri uma latinha de cerveja e a cabeça. É sempre bom abrir. As duas.