sábado, 21 de outubro de 2017

A blusa é da feirinha

Uma ex-namorada me disse, certa vez, que eu não sei receber elogio. Ela costumava me elogiar, e eu, feliz pelo comentário, dava um jeito de fazer algum comentário crítico sobre o motivo do elogio proferido por ela. Ela ria da minha exótica forma de modéstia.

“Nossa, que texto legal que você escreveu, Felipe”, ela disse certa vez. Eu respondi: “Nem deu trabalho. Foi fácil, fiz em poucos minutos, poderia ter ficado bem melhor”.

Outra vez, um amigo, em uma mesa de bar, comentou essa minha estranha loucura. “Você não sabe receber elogios, cara. Você fica sem jeito e dá uma resposta tosca”.

Em um papo recente, com uma amiga, ela falou que muita gente costuma fazer isso. Mas não só com elogios pessoais ou profissionais. Também serve para objetos. Ela revelou que quando alguém fala que gosta de uma roupa dela, ela frisa que foi barata, que é da feirinha, tecido fraco, enfim, desmerece o alvo da citação alheia. Para finalizar, ela concordou com minha ex-namorada e meu atual amigo. Entrou para o time dos que perceberam que não sei receber elogios.

Eles têm razão. Não sei explicar bem o porquê disso. Talvez precise fazer uma análise. Eu fico feliz (e muito) com elogios. Sobretudo quando vêm de pessoas que gosto e admiro. Mas acabo não respondendo da melhor forma. De repente, é melhor agradecer rapidamente, meio tímido, e só.

Pensando bem, creio que minhas respostas se deem por conta do meu lado crítico – inclusive comigo mesmo. Contudo, isso é outro papo. Até porque, meu lado crítico nem é tão crítico assim, gosto de um monte de coisa de qualidade duvidosa...

Todavia, podem elogiar este texto. Ele foi feito em poucos minutos, poderia ficar bem melhor, mas vou receber bem os elogios - eu acho. A propósito, quando escrevi o texto, estava usando uma blusa do Treze Futebol Clube, que todo mundo elogia quando me vê com ela, no entanto, ela foi comprada na feirinha de Itabaiana, no estado da Paraíba.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Quase bipolar

O mundo nas costas, a vista embaçada. Na boca, o sabor é de algo entre o amargo e o insosso. Nada está bom. Nem o que faz de menos pior. Difícil descrever o cenário. É ruim falar do que vai mal.

Num instante, e por um instante, a postura fica reta e firme, como a de alguém que vive de aparências, olhos verdes de beleza e esperança. Talvez tenha sido por conta do açúcar no café.

O Sol entra, já no eterno quase noite, pela janela. Deseja falar como vai tudo bem.
Passou. Foi só instante, mesmo. A boca sorri sem impulso.

O desejo que sempre fica é o de que a ordem e a sequência da estrutura descrita com dificuldade mude. Seria bem melhor se a balança fosse desfavorável de outra forma.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Mapa astral

Lerdão, como ele era chamado, subia na laje e olhava o céu. "Os planetas só trabalham de noite. De dia, eles descansam", dizia ele. Não era muito informado. Nunca fez curso fora. Quem se importa. Era tão gente boa que quase sempre bebia de graça no bar da esquina do beco.

De uma noite para outra, sumiu. Procuramos, preocupados, por um tempo. Depois a procura passou. A preocupação nunca foi embora. Falam que ele disse que queria mudar de vida. Só que isso é óbvio para qualquer favelado.

Ele não era muito de leitura, na verdade, de todos os amigos, só eu, filho de professores, que tinha alguma intimidade com os livros. Ele sabia ler a si mesmo. Soube, de alguém informado, que ele traduziu-se. Foi morar em outro país.

Eu acho mesmo que ele está em outro planeta, desses que só trabalham à noite e descansam durante o dia. Era mais o estilo dele.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Rock errou

Antes de qualquer coisa vem a introdução. É sempre bom lembrar que Rock’n Roll é muito mais que um gênero musical. Rock é estilo de vida, filosofia, religião, tudo em alto e bom som.

Agora, vamos aos versos: para acompanhar primos e amigos, acabei indo para uma noitada eclética, dessas que tocam os ritmos musicais da moda e têm cerveja barata - o que é ótimo. Como não é meu principal ambiente de atuação, ativei o modo observação. Funcionou bem. Observei algo interessante.

Fui de camisa rosa, achando que estaria mais enquadrado ao ambiente. Logo reparei que a maioria esmagadora dos presentes usava preto. Tudo bem, pode ser a cor da moda, boa para usar à noite.

Também pude notar o elevado número de pessoas com tatuagens expostas. Além disso, jaquetas de couro e barba cumprida entre os homens era praxe. Muitos cabelos bagunçados de propósito. Fui até no banheiro desajeitar o meu.

Nas mulheres, alargadores, piercings, botas. Subiu ao palco uma dupla sertaneja universitária e um dos integrantes tinha uma guitarra com a madeira intencionalmente danificada. E ele fazia caras e bocas na hora de solar. Até pensei em bater cabeça.

Em lojas de departamento, dessas que vendem roupas quase em escala industrial, existem muitas camisas de bandas clássicas do Rock. E quem compra, nem sempre, sabe do que se trata. Devem achar que Ramones é grife - deveria ser. Let’s go.

Quando foi que se vestir como roqueiro virou moda? Na época da escola, eu transitava entre os amigos do Rock e os populares. A galera rock’n roll, que ficava sempre no canto do pátio, era um pouco renegada por alguns dos famosos do colégio.

Onde eu quero chegar com esse texto? Não quero chegar a lugar nenhum. Isso é uma crônica, não um veículo de transporte. Todavia, é fato que o visual rock’n roll tomou conta de um público que, por muito tempo, o tratou como esquisitice. O Rock in Rio, evento que muita gente quer ir só pelo evento em si, mesmo não sendo fã de nenhuma atração, é uma confirmação disso. E isso já aconteceu em muitos outros casos. Inclusive com o próprio Rock, em décadas passadas, que passou de febre geral a gênero musical de poucos. A humanidade é mesmo previsível e surpreendente, como um bom solo de guitarra.

Acorde final: cada um se veste do jeito que quiser, adota o estilo que achar melhor, é óbvio. O texto é só uma observação.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Despertadores ao contrário

Os grilos lá longe. A chuva no teto. Ventilador aos pés. Nas folhas, o vento. Nos galhos, os pássaros. Bob Dylan no fone. Você dormindo, respirando, do meu lado.