segunda-feira, 27 de março de 2017

Caminho

Andei pensando em como meus caminhos são pouco lineares. Tento ir em linha reta, concluir o objetivo e pular para uma próxima meta - saciar meu coração metódico. Mas antes do ponto final, sempre dou umas voltas a mais, vírgulas demais, palavras a mais.

Há pouco tempo, fiz uma música chamada “Andarilho”, que é tocada pela minha banda, a Oblíquos. Um verso dela diz “você se perde em sempre querer chegar/ É no caminho que se pode se encontrar/Só vou cansar se eu parar, só vou cansar se eu parar/Que azar o seu parado aí no seu lugar.

É interessante como nós, muitas vezes, nos explicamos para nós mesmos. Na verdade, eu sou o melhor tradutor de mim. O problema é que às vezes, falo línguas que ainda não entendo. Que ainda vou aprender no caminho, passando por novos lugares.

Esse texto não tem muito propósito. Não tem pretensão de chegar a um lugar, um final, um destino. Acho que a ideia é mesmo concluir que o caminho é o que importa. Apesar de ser legal colocar um ponto final, são as letras que nos escrevem.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Perpétua

Diariamente, ela era assombrada por fantasmas. Ou seriam memórias? Não dava para saber. O barulho era o mesmo. As paredes se desarrumavam, não dava para organizar nada. Um furacão por dia entrava sem pedir licença pelos cômodos. As noites ficaram sem medidas. Trocou de casa.

O assombro chegou ao trabalho. Como se não bastasse o inferno que já era. O inferno nunca acaba. A mesa se desarrumava, os papeis sumiam, as contas não fechavam e as janelas se abriam, batendo mais forte que a vida. O salário quase nunca compensa. Trocou de trabalho.

E foi trocando de tudo, pois tudo onde estava era tomado por essa força estranha, devastadora.
Exceto a chegada das cartas e o caminho diferente, nada mudava. As trocas não haviam mudado nada.

Então, ela decidiu transar com seus fantasmas, ou memórias, e foi feliz por toda a eternidade. Perpétua era o nome da moça.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Sentimentos Seletivos

Um amigo e eu caminhávamos e conversávamos pela triste e linda Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. É incrível como o carioca fica mais radiante no verão. O carnaval, que já se aproxima, também deixa a alegria mais caudalosa. Até o afogado Campeonato Estadual de futebol do Rio tem engrossado o caldo dessa felicidade.

O amigo e eu falávamos sobre vários assuntos. Hoje em dia é fácil encontrarmos pessoas que falam a respeito de diversas questões. Difícil é achar quem sabe o que está dizendo. Esse não é o caso do amigo. Ao passo que andávamos, o amigo e eu falávamos, inclusive, sobre paz, carnaval e futebol, que, de acordo com a música de Carlinhos Brown e Michael Sullivan - famosa na voz de Claudia Leite -, não mata, não engorda e não faz mal. E a rádio MPB FM que acabou.

Meu amigo entrou no trágico assunto Dona Marisa, companheira maior de Lula. “O ódio é seletivo”, dizia ele, ao sair lembrando-se das manifestações festivas com a notícia triste. Um horror. Um horror.
“O ódio é seletivo, Felipe”, ele insistia. Falava isso comentando que as mesmas pessoas que criticaram o horror dos opositores em relação ao estado clínico de Dona Marisa poderiam fazer algo parecido com alguém que não fosse de sua preferência pessoal, ideológica ou afetiva.

Ele ainda citou que muitas pessoas que defendem causas se valem do ódio seletivo e se revoltam com determinados alvos em detrimento de outros, tão nocivos quanto às suas bandeiras levantadas.
“A amizade também é seletiva”, destacou o amigo, acreditando que os abraços que FHC e Michel Temer deram em Lula foram sinceros. “Até os corruptos, os corruptores e os opositores, enfim, os políticos brasileiros, têm sentimentos”, salientava o rapaz.

Salvo alguns exemplos, concordei com o amigo. O ódio é seletivo. Os sentimentos são seletivos. Nós somos seletivos. Enquanto isso, um casal de idosos (muito velhinhos) selecionava um livro – com extrema atenção e zelo – em uma dessas bancas improvisadas que são montadas na cidade. Uma história de amor, eu supus.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Brecha

Minha filha Marina e eu estávamos trancados há semanas naquele cômodo escuro e fedido. O único rebento de luz entrava através de um pequeno buraco (uma brecha) na porta de ferro. Era pela mesma brecha que, uma vez por dia, os sequestradores nos entregavam comida. Os pratos sempre vinham fartos e acompanhados por deliciosas porções de batatas fritas. Eram divinas as batatas. Nunca havia comido algo tão bom. De verdade. Não era ilusão ou fome de cárcere. Eram mesmo deliciosas as batatas. A vida é mesmo difícil de entender. Em momentos de veemente dificuldade, ela nos concede prazeres enérgicos.

Uma manhã, após muitas porções de batatas fritas, Marina, cujo sono cabia em meus braços, levantou espantada e me perguntou que luz era aquela que enchia o cômodo pouco arejado. Ainda sonolento, fraco, respondi: “É só a luz do Sol, Marina. É só a luz do Sol”.

Foi então que me dei conta que uma janela, não muito alta, presente em uma das quatro paredes do cômodo, estava aberta. Ancorei Marina nos ombros e fugi. Me senti um vencedor por salvar minha filha daquela situação. Danem-se as batatas, danem-se as batatas, eu pensei.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Janelas altas

Os feudos em guerra, as pessoas ao chão, embaixo da terra. E o rei em seu palácio de janelas altas só enxergava o que não víamos.

Foram tempos difíceis, pouco se tinha para comer e vestir. Menos ainda para amar. Períodos brutos formam sujeitos brutos. Está escrito.

O rei, em seu palácio de janelas altas, só enxergava o que não víamos. Só enxergava o que queria. Nem todo mundo tem querer. É assim desde sempre.

Delirantes eram as doenças. Quase democráticas, levavam crianças, jovens, adultos e idosos. Eu sobrevivi. Ou sobrei. Às vezes dá no mesmo. Pude ver o novo. Não se garante que é bom, mas é novo.

O reinado acabou. As janelas altas baixaram, as portas subiram. O rei saiu. Foi tirado - tirano. Achávamos: “agora ele vai ver o que vemos”. Estávamos errados. Aprendemos que não podíamos sonhar muito, precisávamos estar de olhos abertos para realizar.

O rei saiu do palácio de janelas altas, entretanto, continuou sem ver o mundo. O rei nunca aprendeu a enxergar.