Mostrando postagens com marcador Doenças Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Doenças Crônicas. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Sem sono
Com o que sonha o homem que dorme próximo à Igreja da Candelária, no Centro da cidade do Rio, vizinho das mortes?
Com o que sonham os dois caras e uma mulher deitados na Rua Ingá, João Pessoa, em uma área onde há poucos anos ninguém precisava dormir?
Com o que sonha a senhora, idosa, cheia de memórias para esquecer, escondida na coberta em frente da Nova Rodoviária de Salvador?
Com o que sonham os meninos estirados nos bancos do Marco Zero, no Recife?
Com o que sonha o velho sentado de olhos fechados ao lado de um bar fechado no Sergipe?
Com o que sonha a travesti que passa a noite na orla das Alagoas?
Eu, realizando uma viagem dos sonhos, não dormi quase nada.
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
Da poeira não te livrarás
“Do pó vieste e ao pó voltarás”, diz a passagem bíblica. Tomara que eu seja perdoado por tal ajuste, mas eu mudaria a frase para “da poeira vieste e na poeira continuarás”.
Existe quem defenda que nós, seres humanos cheios de teias de aranha na cabeça, surgimos da poeira. Crenças à parte, essa pequena formação de partículas estará sempre em nossas vidas. Não duvide disso.
O respaldo científico para tal tese tem a densidade das ideias do astrônomo americano Carl Sagan que já disse que somos poeira das estrelas.
Crianças, normalmente, têm problemas alérgicos com ela. Sim, ela, a poeira, que nos acompanhará do nascimento até a morte. Quem disse que nascemos e morrermos sós? Que ideia mais empoeirada. A poeira estará perpetuamente conosco.
São muitas as formas de gerar poeira. O vento, a dilatação do concreto das construções, as queimadas feitas por nós (que variam do processo industrial ao simples ato de acender um cigarro), entre outras. A poeira está no meio de toda a humanidade.
“Há indícios de que grandes quantidades de partículas de areia são transportadas, pelo ar, da África até a selva amazônica”, afirmou o físico Cláudio Furukawa, da USP, ao site Mundo Estranho.
Quando ficamos adultos, saímos da casa dos pais, achamos que vamos nos livrar de muitas coisas. De fato, nós nos livramos. Menos das contas para pagar e da poeira. Nessa fase da vida, se não lutarmos contra ela, ela nos vence. De goleada. Toma conta de nossas casas. Até crianças de colo são mais resistentes aos efeitos destas pequenas partículas do que jovens-adultos.
Também têm grupos que garantem que viramos poeira cósmica quando morremos. Eu, já cercado pela investida opressora e nada pueril da poeira, estava planejando dar uma revolucionária faxina aqui em casa, mas é melhor conviver com a realidade.
Existe quem defenda que nós, seres humanos cheios de teias de aranha na cabeça, surgimos da poeira. Crenças à parte, essa pequena formação de partículas estará sempre em nossas vidas. Não duvide disso.
O respaldo científico para tal tese tem a densidade das ideias do astrônomo americano Carl Sagan que já disse que somos poeira das estrelas.
Crianças, normalmente, têm problemas alérgicos com ela. Sim, ela, a poeira, que nos acompanhará do nascimento até a morte. Quem disse que nascemos e morrermos sós? Que ideia mais empoeirada. A poeira estará perpetuamente conosco.
São muitas as formas de gerar poeira. O vento, a dilatação do concreto das construções, as queimadas feitas por nós (que variam do processo industrial ao simples ato de acender um cigarro), entre outras. A poeira está no meio de toda a humanidade.
“Há indícios de que grandes quantidades de partículas de areia são transportadas, pelo ar, da África até a selva amazônica”, afirmou o físico Cláudio Furukawa, da USP, ao site Mundo Estranho.
Quando ficamos adultos, saímos da casa dos pais, achamos que vamos nos livrar de muitas coisas. De fato, nós nos livramos. Menos das contas para pagar e da poeira. Nessa fase da vida, se não lutarmos contra ela, ela nos vence. De goleada. Toma conta de nossas casas. Até crianças de colo são mais resistentes aos efeitos destas pequenas partículas do que jovens-adultos.
Também têm grupos que garantem que viramos poeira cósmica quando morremos. Eu, já cercado pela investida opressora e nada pueril da poeira, estava planejando dar uma revolucionária faxina aqui em casa, mas é melhor conviver com a realidade.
sábado, 21 de outubro de 2017
A blusa é da feirinha
Uma ex-namorada me disse, certa vez, que eu não sei receber elogio. Ela costumava me elogiar, e eu, feliz pelo comentário, dava um jeito de fazer algum comentário crítico sobre o motivo do elogio proferido por ela. Ela ria da minha exótica forma de modéstia.
“Nossa, que texto legal que você escreveu, Felipe”, ela disse certa vez. Eu respondi: “Nem deu trabalho. Foi fácil, fiz em poucos minutos, poderia ter ficado bem melhor”.
Outra vez, um amigo, em uma mesa de bar, comentou essa minha estranha loucura. “Você não sabe receber elogios, cara. Você fica sem jeito e dá uma resposta tosca”.
Em um papo recente, com uma amiga, ela falou que muita gente costuma fazer isso. Mas não só com elogios pessoais ou profissionais. Também serve para objetos. Ela revelou que quando alguém fala que gosta de uma roupa dela, ela frisa que foi barata, que é da feirinha, tecido fraco, enfim, desmerece o alvo da citação alheia. Para finalizar, ela concordou com minha ex-namorada e meu atual amigo. Entrou para o time dos que perceberam que não sei receber elogios.
Eles têm razão. Não sei explicar bem o porquê disso. Talvez precise fazer uma análise. Eu fico feliz (e muito) com elogios. Sobretudo quando vêm de pessoas que gosto e admiro. Mas acabo não respondendo da melhor forma. De repente, é melhor agradecer rapidamente, meio tímido, e só.
Pensando bem, creio que minhas respostas se deem por conta do meu lado crítico – inclusive comigo mesmo. Contudo, isso é outro papo. Até porque, meu lado crítico nem é tão crítico assim, gosto de um monte de coisa de qualidade duvidosa...
Todavia, podem elogiar este texto. Ele foi feito em poucos minutos, poderia ficar bem melhor, mas vou receber bem os elogios - eu acho. A propósito, quando escrevi o texto, estava usando uma blusa do Treze Futebol Clube, que todo mundo elogia quando me vê com ela, no entanto, ela foi comprada na feirinha de Itabaiana, no estado da Paraíba.
“Nossa, que texto legal que você escreveu, Felipe”, ela disse certa vez. Eu respondi: “Nem deu trabalho. Foi fácil, fiz em poucos minutos, poderia ter ficado bem melhor”.
Outra vez, um amigo, em uma mesa de bar, comentou essa minha estranha loucura. “Você não sabe receber elogios, cara. Você fica sem jeito e dá uma resposta tosca”.
Em um papo recente, com uma amiga, ela falou que muita gente costuma fazer isso. Mas não só com elogios pessoais ou profissionais. Também serve para objetos. Ela revelou que quando alguém fala que gosta de uma roupa dela, ela frisa que foi barata, que é da feirinha, tecido fraco, enfim, desmerece o alvo da citação alheia. Para finalizar, ela concordou com minha ex-namorada e meu atual amigo. Entrou para o time dos que perceberam que não sei receber elogios.
Eles têm razão. Não sei explicar bem o porquê disso. Talvez precise fazer uma análise. Eu fico feliz (e muito) com elogios. Sobretudo quando vêm de pessoas que gosto e admiro. Mas acabo não respondendo da melhor forma. De repente, é melhor agradecer rapidamente, meio tímido, e só.
Pensando bem, creio que minhas respostas se deem por conta do meu lado crítico – inclusive comigo mesmo. Contudo, isso é outro papo. Até porque, meu lado crítico nem é tão crítico assim, gosto de um monte de coisa de qualidade duvidosa...
Todavia, podem elogiar este texto. Ele foi feito em poucos minutos, poderia ficar bem melhor, mas vou receber bem os elogios - eu acho. A propósito, quando escrevi o texto, estava usando uma blusa do Treze Futebol Clube, que todo mundo elogia quando me vê com ela, no entanto, ela foi comprada na feirinha de Itabaiana, no estado da Paraíba.
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Rock errou
Antes de qualquer coisa vem a introdução. É sempre bom lembrar que Rock’n Roll é muito mais que um gênero musical. Rock é estilo de vida, filosofia, religião, tudo em alto e bom som.
Agora, vamos aos versos: para acompanhar primos e amigos, acabei indo para uma noitada eclética, dessas que tocam os ritmos musicais da moda e têm cerveja barata - o que é ótimo. Como não é meu principal ambiente de atuação, ativei o modo observação. Funcionou bem. Observei algo interessante.
Fui de camisa rosa, achando que estaria mais enquadrado ao ambiente. Logo reparei que a maioria esmagadora dos presentes usava preto. Tudo bem, pode ser a cor da moda, boa para usar à noite.
Também pude notar o elevado número de pessoas com tatuagens expostas. Além disso, jaquetas de couro e barba cumprida entre os homens era praxe. Muitos cabelos bagunçados de propósito. Fui até no banheiro desajeitar o meu.
Nas mulheres, alargadores, piercings, botas. Subiu ao palco uma dupla sertaneja universitária e um dos integrantes tinha uma guitarra com a madeira intencionalmente danificada. E ele fazia caras e bocas na hora de solar. Até pensei em bater cabeça.
Em lojas de departamento, dessas que vendem roupas quase em escala industrial, existem muitas camisas de bandas clássicas do Rock. E quem compra, nem sempre, sabe do que se trata. Devem achar que Ramones é grife - deveria ser. Let’s go.
Quando foi que se vestir como roqueiro virou moda? Na época da escola, eu transitava entre os amigos do Rock e os populares. A galera rock’n roll, que ficava sempre no canto do pátio, era um pouco renegada por alguns dos famosos do colégio.
Onde eu quero chegar com esse texto? Não quero chegar a lugar nenhum. Isso é uma crônica, não um veículo de transporte. Todavia, é fato que o visual rock’n roll tomou conta de um público que, por muito tempo, o tratou como esquisitice. O Rock in Rio, evento que muita gente quer ir só pelo evento em si, mesmo não sendo fã de nenhuma atração, é uma confirmação disso. E isso já aconteceu em muitos outros casos. Inclusive com o próprio Rock, em décadas passadas, que passou de febre geral a gênero musical de poucos. A humanidade é mesmo previsível e surpreendente, como um bom solo de guitarra.
Acorde final: cada um se veste do jeito que quiser, adota o estilo que achar melhor, é óbvio. O texto é só uma observação.
Agora, vamos aos versos: para acompanhar primos e amigos, acabei indo para uma noitada eclética, dessas que tocam os ritmos musicais da moda e têm cerveja barata - o que é ótimo. Como não é meu principal ambiente de atuação, ativei o modo observação. Funcionou bem. Observei algo interessante.
Fui de camisa rosa, achando que estaria mais enquadrado ao ambiente. Logo reparei que a maioria esmagadora dos presentes usava preto. Tudo bem, pode ser a cor da moda, boa para usar à noite.
Também pude notar o elevado número de pessoas com tatuagens expostas. Além disso, jaquetas de couro e barba cumprida entre os homens era praxe. Muitos cabelos bagunçados de propósito. Fui até no banheiro desajeitar o meu.
Nas mulheres, alargadores, piercings, botas. Subiu ao palco uma dupla sertaneja universitária e um dos integrantes tinha uma guitarra com a madeira intencionalmente danificada. E ele fazia caras e bocas na hora de solar. Até pensei em bater cabeça.
Em lojas de departamento, dessas que vendem roupas quase em escala industrial, existem muitas camisas de bandas clássicas do Rock. E quem compra, nem sempre, sabe do que se trata. Devem achar que Ramones é grife - deveria ser. Let’s go.
Quando foi que se vestir como roqueiro virou moda? Na época da escola, eu transitava entre os amigos do Rock e os populares. A galera rock’n roll, que ficava sempre no canto do pátio, era um pouco renegada por alguns dos famosos do colégio.
Onde eu quero chegar com esse texto? Não quero chegar a lugar nenhum. Isso é uma crônica, não um veículo de transporte. Todavia, é fato que o visual rock’n roll tomou conta de um público que, por muito tempo, o tratou como esquisitice. O Rock in Rio, evento que muita gente quer ir só pelo evento em si, mesmo não sendo fã de nenhuma atração, é uma confirmação disso. E isso já aconteceu em muitos outros casos. Inclusive com o próprio Rock, em décadas passadas, que passou de febre geral a gênero musical de poucos. A humanidade é mesmo previsível e surpreendente, como um bom solo de guitarra.
Acorde final: cada um se veste do jeito que quiser, adota o estilo que achar melhor, é óbvio. O texto é só uma observação.
terça-feira, 27 de junho de 2017
Crônica de tempo e vento
Ela era explosiva. Eu, paz e amor. Amava-me no volume máximo. Para mim, melhor no escuro. Se ela guiava para o cinema, eu andava pelos livros. Mas também fazíamos caminhos inversos.
Rio-São Paulo, ponte aérea que o tempo e o vento não levam. Enquanto ela lia Érico, eu folheava Luis Fernando. Estávamos em casa, já éramos uma família.
Ela, shopping lotado. Eu, torcida organizada no Maracanã. Sempre chegava na hora. Já os meus relógios constantemente atrasavam.
Quando eu tinha o cabelo mais cumprido, era o dela, corte Chanel, que o vento chamava para dançar. Não tiro a razão dele, o vento. Eu fazia o mesmo quando nós dois éramos um só, deitados na vida. E éramos um só. Sempre fomos. Até quando estávamos diferentes.
Hoje, tenho entradas de calvíce. Uso relógios que meu pai usava. Esses não atrasam mais. Mas agora é tarde. Perdi a hora. Dela, sei quase nada. De vez em quando bate um vento frio na cabeça, aquece a memória e só. E só. Deu minha hora.
Rio-São Paulo, ponte aérea que o tempo e o vento não levam. Enquanto ela lia Érico, eu folheava Luis Fernando. Estávamos em casa, já éramos uma família.
Ela, shopping lotado. Eu, torcida organizada no Maracanã. Sempre chegava na hora. Já os meus relógios constantemente atrasavam.
Quando eu tinha o cabelo mais cumprido, era o dela, corte Chanel, que o vento chamava para dançar. Não tiro a razão dele, o vento. Eu fazia o mesmo quando nós dois éramos um só, deitados na vida. E éramos um só. Sempre fomos. Até quando estávamos diferentes.
Hoje, tenho entradas de calvíce. Uso relógios que meu pai usava. Esses não atrasam mais. Mas agora é tarde. Perdi a hora. Dela, sei quase nada. De vez em quando bate um vento frio na cabeça, aquece a memória e só. E só. Deu minha hora.
segunda-feira, 5 de junho de 2017
Olhos abertos
Enquanto você dorme, uma cidade acorda para trabalhar. Enquanto você dorme, com os vidros da janela te guardando e a TV ligada em um filme B - corta -, algumas pessoas sangram. Enquanto você dorme e parece segura, é noite de lua cheia.
Enquanto você dorme e se esconde nos lençóis, um homem velho e sério bebe, revelando seu pior lado. Enquanto você dorme, a prostituta deita. Enquanto você dorme, o porteiro cochila.
Enquanto você dorme sem razões, fazem contas. Enquanto você dorme, pessoas mentem. Enquanto você dorme, os gatos ganham as ruas. Menos o seu, porque ele gosta de te ver dormir.
Enquanto você dorme, sonha. Acordado, também sonha o rapaz com o caderno no colo. Enquanto você dorme, uma vida acontece. Enquanto você dorme, dorme, dorme, dorme e dorme.
Enquanto você dorme, eu fico aqui, de olhos abertos, te admirando. Pouco importa o mundo lá fora. Se eles pudessem te olhar dormindo, te esperariam acordar para fazer qualquer coisa, não fariam nada enquanto você dorme.
Enquanto você dorme e se esconde nos lençóis, um homem velho e sério bebe, revelando seu pior lado. Enquanto você dorme, a prostituta deita. Enquanto você dorme, o porteiro cochila.
Enquanto você dorme sem razões, fazem contas. Enquanto você dorme, pessoas mentem. Enquanto você dorme, os gatos ganham as ruas. Menos o seu, porque ele gosta de te ver dormir.
Enquanto você dorme, sonha. Acordado, também sonha o rapaz com o caderno no colo. Enquanto você dorme, uma vida acontece. Enquanto você dorme, dorme, dorme, dorme e dorme.
Enquanto você dorme, eu fico aqui, de olhos abertos, te admirando. Pouco importa o mundo lá fora. Se eles pudessem te olhar dormindo, te esperariam acordar para fazer qualquer coisa, não fariam nada enquanto você dorme.
segunda-feira, 27 de março de 2017
Caminho
Andei pensando em como meus caminhos são pouco lineares. Tento ir em linha reta, concluir o objetivo e pular para uma próxima meta - saciar meu coração metódico. Mas antes do ponto final, sempre dou umas voltas a mais, vírgulas demais, palavras a mais.
Há pouco tempo, fiz uma música chamada “Andarilho”, que é tocada pela minha banda, a Oblíquos. Um verso dela diz “você se perde em sempre querer chegar/ É no caminho que se pode se encontrar/Só vou cansar se eu parar, só vou cansar se eu parar/Que azar o seu parado aí no seu lugar.
É interessante como nós, muitas vezes, nos explicamos para nós mesmos. Na verdade, eu sou o melhor tradutor de mim. O problema é que às vezes, falo línguas que ainda não entendo. Que ainda vou aprender no caminho, passando por novos lugares.
Esse texto não tem muito propósito. Não tem pretensão de chegar a um lugar, um final, um destino. Acho que a ideia é mesmo concluir que o caminho é o que importa. Apesar de ser legal colocar um ponto final, são as letras que nos escrevem.
Há pouco tempo, fiz uma música chamada “Andarilho”, que é tocada pela minha banda, a Oblíquos. Um verso dela diz “você se perde em sempre querer chegar/ É no caminho que se pode se encontrar/Só vou cansar se eu parar, só vou cansar se eu parar/Que azar o seu parado aí no seu lugar.
É interessante como nós, muitas vezes, nos explicamos para nós mesmos. Na verdade, eu sou o melhor tradutor de mim. O problema é que às vezes, falo línguas que ainda não entendo. Que ainda vou aprender no caminho, passando por novos lugares.
Esse texto não tem muito propósito. Não tem pretensão de chegar a um lugar, um final, um destino. Acho que a ideia é mesmo concluir que o caminho é o que importa. Apesar de ser legal colocar um ponto final, são as letras que nos escrevem.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
Sentimentos Seletivos
Um amigo e eu caminhávamos e conversávamos pela triste e linda Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. É incrível como o carioca fica mais radiante no verão. O carnaval, que já se aproxima, também deixa a alegria mais caudalosa. Até o afogado Campeonato Estadual de futebol do Rio tem engrossado o caldo dessa felicidade.
O amigo e eu falávamos sobre vários assuntos. Hoje em dia é fácil encontrarmos pessoas que falam a respeito de diversas questões. Difícil é achar quem sabe o que está dizendo. Esse não é o caso do amigo. Ao passo que andávamos, o amigo e eu falávamos, inclusive, sobre paz, carnaval e futebol, que, de acordo com a música de Carlinhos Brown e Michael Sullivan - famosa na voz de Claudia Leite -, não mata, não engorda e não faz mal. E a rádio MPB FM que acabou.
Meu amigo entrou no trágico assunto Dona Marisa, companheira maior de Lula. “O ódio é seletivo”, dizia ele, ao sair lembrando-se das manifestações festivas com a notícia triste. Um horror. Um horror.
“O ódio é seletivo, Felipe”, ele insistia. Falava isso comentando que as mesmas pessoas que criticaram o horror dos opositores em relação ao estado clínico de Dona Marisa poderiam fazer algo parecido com alguém que não fosse de sua preferência pessoal, ideológica ou afetiva.
Ele ainda citou que muitas pessoas que defendem causas se valem do ódio seletivo e se revoltam com determinados alvos em detrimento de outros, tão nocivos quanto às suas bandeiras levantadas.
“A amizade também é seletiva”, destacou o amigo, acreditando que os abraços que FHC e Michel Temer deram em Lula foram sinceros. “Até os corruptos, os corruptores e os opositores, enfim, os políticos brasileiros, têm sentimentos”, salientava o rapaz.
Salvo alguns exemplos, concordei com o amigo. O ódio é seletivo. Os sentimentos são seletivos. Nós somos seletivos. Enquanto isso, um casal de idosos (muito velhinhos) selecionava um livro – com extrema atenção e zelo – em uma dessas bancas improvisadas que são montadas na cidade. Uma história de amor, eu supus.
O amigo e eu falávamos sobre vários assuntos. Hoje em dia é fácil encontrarmos pessoas que falam a respeito de diversas questões. Difícil é achar quem sabe o que está dizendo. Esse não é o caso do amigo. Ao passo que andávamos, o amigo e eu falávamos, inclusive, sobre paz, carnaval e futebol, que, de acordo com a música de Carlinhos Brown e Michael Sullivan - famosa na voz de Claudia Leite -, não mata, não engorda e não faz mal. E a rádio MPB FM que acabou.
Meu amigo entrou no trágico assunto Dona Marisa, companheira maior de Lula. “O ódio é seletivo”, dizia ele, ao sair lembrando-se das manifestações festivas com a notícia triste. Um horror. Um horror.
“O ódio é seletivo, Felipe”, ele insistia. Falava isso comentando que as mesmas pessoas que criticaram o horror dos opositores em relação ao estado clínico de Dona Marisa poderiam fazer algo parecido com alguém que não fosse de sua preferência pessoal, ideológica ou afetiva.
Ele ainda citou que muitas pessoas que defendem causas se valem do ódio seletivo e se revoltam com determinados alvos em detrimento de outros, tão nocivos quanto às suas bandeiras levantadas.
“A amizade também é seletiva”, destacou o amigo, acreditando que os abraços que FHC e Michel Temer deram em Lula foram sinceros. “Até os corruptos, os corruptores e os opositores, enfim, os políticos brasileiros, têm sentimentos”, salientava o rapaz.
Salvo alguns exemplos, concordei com o amigo. O ódio é seletivo. Os sentimentos são seletivos. Nós somos seletivos. Enquanto isso, um casal de idosos (muito velhinhos) selecionava um livro – com extrema atenção e zelo – em uma dessas bancas improvisadas que são montadas na cidade. Uma história de amor, eu supus.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
Estação Consolação
Metrô lotado. Mal consigo me segurar. Mas nem preciso, não há espaço para cair. Gosto de olhar as pessoas nessas situações. As pessoas são muitas. Com a discrição que minha cara de bom moço me concede, observo sem ser recriminado.
A viagem é rápida, mas longa. Isso nem é uma frase complexa. Estou indo para longe. Um casal não parece estar indo muito bem. Ele tenta falar algo, ela desvia a rota do assunto para uma rua sem saída.
Um grupo de homens fala mal de um colega de trabalho. Duas mulheres trocam elogios. Uma idosa está de pé. Uns garotos estão sentados no chão.
Uma moça, roupas rotas, olha para o nada. Parece triste. É uma afirmação perigosa, eu sei. Mas toda intuição é perigosa.
A viagem está cansativa. A cada estação é um grupo grande que sai esbarrando com violência e uma nova leva de pessoas que chega com ainda menos delicadeza.
Pisaram no pé. Tomei uma braçada no rosto, empurrão pelas costas, dor no braço. Não, não estava jogando bola. Ainda estou no metrô. Segue o jogo.
Olho para a moça triste. Ela está olhando para o nada. O nada cheio de pessoas. Sem prefácio, ela sorri. Um sorriso sem causa. Uma revolução possível.
Minha estação chegou. Minha e de tantos outros. As coisas melhoraram. Na plataforma, consigo andar, tem mais espaço, novos ares. Também me deu vontade de sorrir.
A viagem é rápida, mas longa. Isso nem é uma frase complexa. Estou indo para longe. Um casal não parece estar indo muito bem. Ele tenta falar algo, ela desvia a rota do assunto para uma rua sem saída.
Um grupo de homens fala mal de um colega de trabalho. Duas mulheres trocam elogios. Uma idosa está de pé. Uns garotos estão sentados no chão.
Uma moça, roupas rotas, olha para o nada. Parece triste. É uma afirmação perigosa, eu sei. Mas toda intuição é perigosa.
A viagem está cansativa. A cada estação é um grupo grande que sai esbarrando com violência e uma nova leva de pessoas que chega com ainda menos delicadeza.
Pisaram no pé. Tomei uma braçada no rosto, empurrão pelas costas, dor no braço. Não, não estava jogando bola. Ainda estou no metrô. Segue o jogo.
Olho para a moça triste. Ela está olhando para o nada. O nada cheio de pessoas. Sem prefácio, ela sorri. Um sorriso sem causa. Uma revolução possível.
Minha estação chegou. Minha e de tantos outros. As coisas melhoraram. Na plataforma, consigo andar, tem mais espaço, novos ares. Também me deu vontade de sorrir.
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Força, Chape
Talvez a única coisa boa nessa tragédia toda envolvendo o voo da equipe da Chapecoense seja a solidariedade que a grande maioria das pessoas tem manifestado. Em um país onde quase todo mundo se divide e briga por quase tudo, ver essa união é, dentro de uma situação infinitamente triste, até animador.
O elenco da Chapecoense, de modo geral, era formado por jogadores que nunca foram protagonistas em outros times. Tinha um técnico considerado talentoso, mas ainda não um "vitorioso". Um clube jovem, que vivia seu maior momento, após uma ascensão louvável. Jornalistas (alguns com os quais eu cheguei a conviver) que iam cobrir uma grande história. Uma das maiores dos últimos tempos. Todos viviam um sonho e sonhos são ótimos para aliviar a dor. Que fiquem, acima de tudo, as boas lembranças dos se foram nesse momento trágico.
O futebol - assim como os sonhos - ajuda a melhorar a vida. Que ele também nos ajude agora. Que faça com que sejamos cada vez mais solidários, humanos e que valorizemos as pessoas enquanto estão perto de nós.
O elenco da Chapecoense, de modo geral, era formado por jogadores que nunca foram protagonistas em outros times. Tinha um técnico considerado talentoso, mas ainda não um "vitorioso". Um clube jovem, que vivia seu maior momento, após uma ascensão louvável. Jornalistas (alguns com os quais eu cheguei a conviver) que iam cobrir uma grande história. Uma das maiores dos últimos tempos. Todos viviam um sonho e sonhos são ótimos para aliviar a dor. Que fiquem, acima de tudo, as boas lembranças dos se foram nesse momento trágico.
O futebol - assim como os sonhos - ajuda a melhorar a vida. Que ele também nos ajude agora. Que faça com que sejamos cada vez mais solidários, humanos e que valorizemos as pessoas enquanto estão perto de nós.
sábado, 22 de outubro de 2016
Vítima
Quase foi jogador profissional de vôlei, mas não conseguiu porque, segundo ele, nesse esporte só se dá bem quem tem QI - quem indica. Embora tivesse um metro e meio de altura, pensava assim. Grande QI.
Mais velho, quase foi professor de educação física, mas não conseguiu porque, segundo ele, nessa área tem muita burocracia. Porém, nem terminou o ensino médio. Grande QI.
Tempos depois, quase foi dono de restaurante, mas não conseguiu porque, segundo ele, nessa área tem muita panela (literal e não literalmente) e as pessoas não recebem bem gente nova. Já tinha até dinheiro guardado para começar. Juntou R$ 300 e achava o suficiente para abrir um estabelecimento de alto nível.
Na mesma época, quase foi o melhor vendedor da loja roupas onde trabalhou por anos. Tirando os outros 11 vendedores, ele foi o segundo e, segundo ele, era injustiçado pelos clientes que não compravam com ele. Mesmo nos horários que ele não estava na loja.
Quase se casou. Só não subiu ao altar porque, segundo ele, a ex-namorada exagerou ao largá-lo depois da segunda traição. “Ingrata e injusta”, diz ele se referindo a ela.
Os amigos se afastaram e, segundo ele, foram babacas. “Pararam de andar comigo só porque não aceito opiniões contrárias, olhava bastante para as esposas deles e arrumava umas brigas com eles, às vezes, só às vezes”, conta a injustiça.
Um dia de domingo, ele se olhou no espelho e decidiu que tudo ia mudar. Não. Não, ele não percebeu que, às vezes, as coisas dão errado por nossa culpa, ele decidiu que, segunda-feira, iria pintar o cabelo. Pela segunda vez na vida.
Mais velho, quase foi professor de educação física, mas não conseguiu porque, segundo ele, nessa área tem muita burocracia. Porém, nem terminou o ensino médio. Grande QI.
Tempos depois, quase foi dono de restaurante, mas não conseguiu porque, segundo ele, nessa área tem muita panela (literal e não literalmente) e as pessoas não recebem bem gente nova. Já tinha até dinheiro guardado para começar. Juntou R$ 300 e achava o suficiente para abrir um estabelecimento de alto nível.
Na mesma época, quase foi o melhor vendedor da loja roupas onde trabalhou por anos. Tirando os outros 11 vendedores, ele foi o segundo e, segundo ele, era injustiçado pelos clientes que não compravam com ele. Mesmo nos horários que ele não estava na loja.
Quase se casou. Só não subiu ao altar porque, segundo ele, a ex-namorada exagerou ao largá-lo depois da segunda traição. “Ingrata e injusta”, diz ele se referindo a ela.
Os amigos se afastaram e, segundo ele, foram babacas. “Pararam de andar comigo só porque não aceito opiniões contrárias, olhava bastante para as esposas deles e arrumava umas brigas com eles, às vezes, só às vezes”, conta a injustiça.
Um dia de domingo, ele se olhou no espelho e decidiu que tudo ia mudar. Não. Não, ele não percebeu que, às vezes, as coisas dão errado por nossa culpa, ele decidiu que, segunda-feira, iria pintar o cabelo. Pela segunda vez na vida.
domingo, 25 de setembro de 2016
Festa de solteiro
Fazer aniversário estando solteiro é complicado. Não, não estou falando de não ganhar presentes bacanas, pagos em várias vezes com juros e juras de amor. Eu estou aqui para falar de festa.
Você arma aquela comemoração para juntar os amigos e, de quebra, vêm os amigados. Os cachos. Os cruzos. Os crush. Os rolos. Os enrolos. Aí, quem se enrola é você.
A festa rolando, o bar bombando, a social completa, a cerva comendo e você ali, tendo que dar atenção a dois, três - ou até mais - afetos. Haja coração, amigo!
Um caso é mais antigo, mas você sabe que o futuro não é para sempre. Todavia, merece moral, atenção, afinal, esteve ao seu lado numa fase ruim. Sempre te atende.
O outro rolo também não é tão novo, mas é menos constante, menos problema, mais amor. Por favor. Merece atendimento preferencial. Mas se você pegar ali, na frente de todo mundo, vai passar recibo de algo mais e os outros a mais vão ficar de menos com você. Certamente a cobrança vai ser alta. Vai pagar pelo que fez e pelo que não fez.
Sempre tem aquele cruzo recente. Desejo pegando fogo. Aí rola o receio da pulada de fila: se você ainda não pegou os casos antigos para não parecer que é namoro, por que pegar o cacho novo? O amor espera. Isso serve, também, para os flertes em processo de gestação. Vai nascer, pode confiar, meu bem.
A saída, pelo menos a minha, é a escapada. Você fica aqui, ali, de bar em bar, de mesa em mesa, dando atenção aos amigos e às amigas, aos casos e acasos. Na primeira brecha do destino, o ataque. “Vai no banheiro pra gente se beijar, bem lá no escurinho pra ninguém desconfiar”. É só festa, “vamos voltar para perto da galera. Que bom que você veio celebrar comigo”, sussurra o aniversariante.
Assim, você leva. Vai aqui, vai ali, garante que não vai perder nenhum contato por aí. Todo mundo ganha, parece jogo de compadre. Na volta para casa, você escolhe um para se achar. Mas sem perder os outros de vista.
Pensando bem, fazer aniversário solteiro nem é tão complicado. É questão de administrar. Ganhar um pouquinho de cada, retribuir, e não perder nada no final. Até porque, ano que vem pode ter mais.
Você arma aquela comemoração para juntar os amigos e, de quebra, vêm os amigados. Os cachos. Os cruzos. Os crush. Os rolos. Os enrolos. Aí, quem se enrola é você.
A festa rolando, o bar bombando, a social completa, a cerva comendo e você ali, tendo que dar atenção a dois, três - ou até mais - afetos. Haja coração, amigo!
Um caso é mais antigo, mas você sabe que o futuro não é para sempre. Todavia, merece moral, atenção, afinal, esteve ao seu lado numa fase ruim. Sempre te atende.
O outro rolo também não é tão novo, mas é menos constante, menos problema, mais amor. Por favor. Merece atendimento preferencial. Mas se você pegar ali, na frente de todo mundo, vai passar recibo de algo mais e os outros a mais vão ficar de menos com você. Certamente a cobrança vai ser alta. Vai pagar pelo que fez e pelo que não fez.
Sempre tem aquele cruzo recente. Desejo pegando fogo. Aí rola o receio da pulada de fila: se você ainda não pegou os casos antigos para não parecer que é namoro, por que pegar o cacho novo? O amor espera. Isso serve, também, para os flertes em processo de gestação. Vai nascer, pode confiar, meu bem.
A saída, pelo menos a minha, é a escapada. Você fica aqui, ali, de bar em bar, de mesa em mesa, dando atenção aos amigos e às amigas, aos casos e acasos. Na primeira brecha do destino, o ataque. “Vai no banheiro pra gente se beijar, bem lá no escurinho pra ninguém desconfiar”. É só festa, “vamos voltar para perto da galera. Que bom que você veio celebrar comigo”, sussurra o aniversariante.
Assim, você leva. Vai aqui, vai ali, garante que não vai perder nenhum contato por aí. Todo mundo ganha, parece jogo de compadre. Na volta para casa, você escolhe um para se achar. Mas sem perder os outros de vista.
Pensando bem, fazer aniversário solteiro nem é tão complicado. É questão de administrar. Ganhar um pouquinho de cada, retribuir, e não perder nada no final. Até porque, ano que vem pode ter mais.
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Ela fecha os olhos
Ela fecha os olhos quando sorri. Quem fecha os olhos, olha para dentro. Ela sabe que a alegria deve ser interna.
Eu também fecho os olhos quando abro um sorriso. Mas quem se importa comigo? Os olhos dela... Isso que importa. Exporta luz aos dias.
Ela fecha os olhos quando sorri. Guarda a cena da alegria. Guarda, mas não prende. É só piscar que a felicidade se espalha.
Ela pisca para mim. Eu dou risada e fecho os olhos. Arquivo um plano na memória.
Eu lembro de uma piada. Conto. Ela sorri. Ela fecha os olhos quando sorri.
Ela fica linda quando sorri. Ela está rindo outra vez. Agora. Nem vai ler o texto que escrevi para ela. Ela fecha os olhos quando sorri.
Eu também fecho os olhos quando abro um sorriso. Mas quem se importa comigo? Os olhos dela... Isso que importa. Exporta luz aos dias.
Ela fecha os olhos quando sorri. Guarda a cena da alegria. Guarda, mas não prende. É só piscar que a felicidade se espalha.
Ela pisca para mim. Eu dou risada e fecho os olhos. Arquivo um plano na memória.
Eu lembro de uma piada. Conto. Ela sorri. Ela fecha os olhos quando sorri.
Ela fica linda quando sorri. Ela está rindo outra vez. Agora. Nem vai ler o texto que escrevi para ela. Ela fecha os olhos quando sorri.
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Cachaça nacional
Em uma dessas farras olímpicas, conheci uma mina da Rússia - ela falava um português difícil, mas bebia Catuaba fácil. Dizia que adoraria que o país dela fabricasse a bebida.
Papo vai, dose vem, trocamos uma ideia boa. Muito boa. Um amigo até tentou explicar para ela que no Brasil existe uma expressão ("a coisa tá russa") para quando não vai nada bem. Ela não entendeu a frase, no entanto, pareceu entender bem o povo brasileiro.
Ela me disse que já havia vindo ao Brasil duas vezes e o que mais gostava aqui era a alegria do povo.
Disse para ela que eu, sinceramente, não consigo entender como conseguimos ser um povo tão feliz em um país com tantos problemas. Expliquei, ainda, que não sabia se essa alegria toda era boa ou ruim, por não compreender se isso nos ajuda a superar as dificuldades ou se colabora para que nunca saiamos delas.
Ela desdenhou da minha etílica reflexão e disse que a Rússia é cheia de problemas como os nossos: corrupção, violência, bebidas caras. E o fato de ser um povo menos festivo não muda em nada essa realidade. Eles, assim como nós, continuam com dificuldades. E sem Catuaba.
No dia seguinte, peguei um metrô lotado, com o ar condicionado ruim e tinha gente, dentro do vagão, fazendo piada da situação.
Agora (sóbrio), continuo sem saber se ser um povo festivo e que faz graça com quase tudo é bom ou ruim. Talvez seja os dois. Talvez só um. Talvez nenhum. Pelo menos, temos Catuaba. O que já é um bom motivo para ser feliz.
Papo vai, dose vem, trocamos uma ideia boa. Muito boa. Um amigo até tentou explicar para ela que no Brasil existe uma expressão ("a coisa tá russa") para quando não vai nada bem. Ela não entendeu a frase, no entanto, pareceu entender bem o povo brasileiro.
Ela me disse que já havia vindo ao Brasil duas vezes e o que mais gostava aqui era a alegria do povo.
Disse para ela que eu, sinceramente, não consigo entender como conseguimos ser um povo tão feliz em um país com tantos problemas. Expliquei, ainda, que não sabia se essa alegria toda era boa ou ruim, por não compreender se isso nos ajuda a superar as dificuldades ou se colabora para que nunca saiamos delas.
Ela desdenhou da minha etílica reflexão e disse que a Rússia é cheia de problemas como os nossos: corrupção, violência, bebidas caras. E o fato de ser um povo menos festivo não muda em nada essa realidade. Eles, assim como nós, continuam com dificuldades. E sem Catuaba.
No dia seguinte, peguei um metrô lotado, com o ar condicionado ruim e tinha gente, dentro do vagão, fazendo piada da situação.
Agora (sóbrio), continuo sem saber se ser um povo festivo e que faz graça com quase tudo é bom ou ruim. Talvez seja os dois. Talvez só um. Talvez nenhum. Pelo menos, temos Catuaba. O que já é um bom motivo para ser feliz.
terça-feira, 2 de agosto de 2016
Cara ou Coroa
O rapaz, que estava em frente à coluna do muro que separa uma escola e uma entrada para uma rua sem saída, jogava uma moeda para o alto. Após o lançar do níquel, ele olhava se deu cara ou coroa. Como se fosse árbitro da própria sorte.
As pessoas passavam com pressa e roupas bonitas, balançando seus cabelos. A moda do cabelo cumprido voltou? Vou deixar o meu crescer outra vez. Quem parece que cresceu de uma vez foi o rapaz da moeda. A vida nos acaba. Vinte e poucos anos, mas com cara de muitos outros. Sem camisa, sujo e descalço, ele não tinha cara de quem tinha muitas moedas no bolso. Nem cara, nem coroa.
Eu, ainda que contrariado pela manhã, pelo despertador e pelo engarrafamento, estava indo para o trabalho que escolhi (ou aceitei), na aérea que escolhi (ou aceitei), na profissão que escolhi (ou acetei).
Poderia ser diferente. Eu poderia estar indo para outro lugar, outro caminho, outra área, outro trabalho. Eu poderia ter escolhido menos e, com isso, a vida poderia ter escolhido mais por mim. Ou não. Nós forçamos as possibilidades de escolhas ou as possibilidades nos forçam a escolher? Sempre fui favorável ao maior número de escolhas possível. Para tudo na vida. Será que posso ser assim?
O rapaz ainda estava jogando a moeda para o alto, como se estivesse buscando ajuda para escolher algo. Será que ele pode escolher tanto assim? Será que podemos escolher tanto assim?
As pessoas passavam com pressa e roupas bonitas, balançando seus cabelos. A moda do cabelo cumprido voltou? Vou deixar o meu crescer outra vez. Quem parece que cresceu de uma vez foi o rapaz da moeda. A vida nos acaba. Vinte e poucos anos, mas com cara de muitos outros. Sem camisa, sujo e descalço, ele não tinha cara de quem tinha muitas moedas no bolso. Nem cara, nem coroa.
Eu, ainda que contrariado pela manhã, pelo despertador e pelo engarrafamento, estava indo para o trabalho que escolhi (ou aceitei), na aérea que escolhi (ou aceitei), na profissão que escolhi (ou acetei).
Poderia ser diferente. Eu poderia estar indo para outro lugar, outro caminho, outra área, outro trabalho. Eu poderia ter escolhido menos e, com isso, a vida poderia ter escolhido mais por mim. Ou não. Nós forçamos as possibilidades de escolhas ou as possibilidades nos forçam a escolher? Sempre fui favorável ao maior número de escolhas possível. Para tudo na vida. Será que posso ser assim?
O rapaz ainda estava jogando a moeda para o alto, como se estivesse buscando ajuda para escolher algo. Será que ele pode escolher tanto assim? Será que podemos escolher tanto assim?
terça-feira, 26 de julho de 2016
Abrir a lata da cabeça
Um amigo me contou que parou de beber. Disse que estava tendo uns problemas; nada com a saúde, não. A questão era de segurança mesmo. Alegou que andou cometendo uns erros, como esquecer o caminho de casa, roubar placas de trânsito, entrar em brigas de moradores de rua e ligar para ex-namorada.
Esse mesmo amigo, que agora vai ser o motorista da rodada de todas as rodadas, o Imune à Lei Seca, falou que desde que tirou o álcool da dieta, a cabeça dele abriu e ele passou a enxergar outras possibilidades de vida, de diversão.
“Tem muita coisa que a gente deixa de fazer porque está sempre pensando em tomar uma cerveja. Inclusive, ver os amigos é possível sem bebida, sabia? As pessoas veem melhor sem os efeitos do álcool”, debochou o bico seco.
A argumentação do rapaz foi ótima. Deve ter sido porque ele estava sóbrio e não enrolou a língua. Meu amigo zero álcool falou por horas de como está vivendo melhor e se divertindo mais sem encher o tanque. Ele acredita que vai bem mais longe assim. Eu respeito. Juro que não vou me afastar dele só porque ele não bebe mais.
Segundo ele, agora, sem álcool no sangue, é possível praticar mais esportes, acordar mais cedo e disposto, curtir o Sol (e não a Sol, cerveja) e até mesmo pensar melhor, ser mais racional. Uma onda meio Tim Maia sem doping.
Depois da conversa (e da ressaca), fiquei pensando e conclui que, em um ponto, o novo-sóbrio tem razão. De fato, nós deixamos de viver muitas coisas porque optamos por outras. Mas se fizéssemos o caminho inverso, não daria no mesmo? Não sei. O que sei é que escolhas nos reduzem e é muito triste saber que não posso fazer quase tudo que quero. Dá até vontade de beber para esquecer isso.
Para pensar melhor, como era hora do almoço, abri uma latinha de cerveja e a cabeça. É sempre bom abrir. As duas.
Esse mesmo amigo, que agora vai ser o motorista da rodada de todas as rodadas, o Imune à Lei Seca, falou que desde que tirou o álcool da dieta, a cabeça dele abriu e ele passou a enxergar outras possibilidades de vida, de diversão.
“Tem muita coisa que a gente deixa de fazer porque está sempre pensando em tomar uma cerveja. Inclusive, ver os amigos é possível sem bebida, sabia? As pessoas veem melhor sem os efeitos do álcool”, debochou o bico seco.
A argumentação do rapaz foi ótima. Deve ter sido porque ele estava sóbrio e não enrolou a língua. Meu amigo zero álcool falou por horas de como está vivendo melhor e se divertindo mais sem encher o tanque. Ele acredita que vai bem mais longe assim. Eu respeito. Juro que não vou me afastar dele só porque ele não bebe mais.
Segundo ele, agora, sem álcool no sangue, é possível praticar mais esportes, acordar mais cedo e disposto, curtir o Sol (e não a Sol, cerveja) e até mesmo pensar melhor, ser mais racional. Uma onda meio Tim Maia sem doping.
Depois da conversa (e da ressaca), fiquei pensando e conclui que, em um ponto, o novo-sóbrio tem razão. De fato, nós deixamos de viver muitas coisas porque optamos por outras. Mas se fizéssemos o caminho inverso, não daria no mesmo? Não sei. O que sei é que escolhas nos reduzem e é muito triste saber que não posso fazer quase tudo que quero. Dá até vontade de beber para esquecer isso.
Para pensar melhor, como era hora do almoço, abri uma latinha de cerveja e a cabeça. É sempre bom abrir. As duas.
terça-feira, 19 de julho de 2016
Desejo o mal
“Vá à merda! Te desejo que há pior nessa vida”, disse o homem que falava ao telefone na numerosa fila para o caixa do banco. Ele estava à minha frente, nem precisei fazer leitura labial.
Certamente o cara da fila tinha as piores intensões possíveis ao desejar aquilo a alguém. No entanto, eu que, assim como na letra de Humberto Gessinger: “Do goleiro ao centroavante, do juiz ao presidente, eu não consigo odiar ninguém”, me questionei sobre essa ideia de desejar coisas ruins às pessoas.
Não, eu não vou sair rogando pragas por aí. Nem tenho vocação para isso. Talvez, eu faça isso, mas só para uma parte da classe política. Talvez, eu já tenha feito. Talvez, eu esteja fazendo agora... Cuidado!
A questão é que, muitas vezes, nós precisamos passar por coisas ruins. É meio clichê, mas o sofrimento ensina mais que a felicidade. Falo por experiência própria. Foi passando, “curtindo” e vivendo as piores fases da minha vida que dei alguns dos meus grandes passos. Acredito que isso acontece com muita gente.
Então, muitas vezes, desejar algo mal, não é tão ruim assim. Como já ouvi uma vez: “prefiro me foder na vida a gozar a morte”. Faz sentido. Logo, desejo que todos vocês se fodam, com a melhor das intenções, é claro.
*Perdi seguidores e alguns dos que ficaram vivem me cobrando textos frequentes. Vocês são loucos, mas como gosto de escrever para esse antro de palavras perdidas, postarei semanalmente aqui. Beijos e abraços.
Certamente o cara da fila tinha as piores intensões possíveis ao desejar aquilo a alguém. No entanto, eu que, assim como na letra de Humberto Gessinger: “Do goleiro ao centroavante, do juiz ao presidente, eu não consigo odiar ninguém”, me questionei sobre essa ideia de desejar coisas ruins às pessoas.
Não, eu não vou sair rogando pragas por aí. Nem tenho vocação para isso. Talvez, eu faça isso, mas só para uma parte da classe política. Talvez, eu já tenha feito. Talvez, eu esteja fazendo agora... Cuidado!
A questão é que, muitas vezes, nós precisamos passar por coisas ruins. É meio clichê, mas o sofrimento ensina mais que a felicidade. Falo por experiência própria. Foi passando, “curtindo” e vivendo as piores fases da minha vida que dei alguns dos meus grandes passos. Acredito que isso acontece com muita gente.
Então, muitas vezes, desejar algo mal, não é tão ruim assim. Como já ouvi uma vez: “prefiro me foder na vida a gozar a morte”. Faz sentido. Logo, desejo que todos vocês se fodam, com a melhor das intenções, é claro.
*Perdi seguidores e alguns dos que ficaram vivem me cobrando textos frequentes. Vocês são loucos, mas como gosto de escrever para esse antro de palavras perdidas, postarei semanalmente aqui. Beijos e abraços.
quarta-feira, 1 de junho de 2016
Parabéns
Na minha escala de ídolos, você está em primeiro lugar, à frente George Harrison, Millôr Fernandes, Machado de Assis, Martin Scorsese, Gay Talese e Zidane.
Você não é guitarrista de uma banda de rock, como foi Harrison nos Beatles, mas colaborou muito pro meu amor pela música.
Você não é um dos maiores humoristas e intelectuais de todos os tempos, como Millôr, mas é um cara sábio e sempre tem tiradas humoradas.
Você não escreve, dirige filmes, é jornalista, como Machado, Scorsese e Talese, mas sempre me incentivou (e muito) a traçar meu caminho profissional.
Você nunca jogou tanta bola, como Zidane, mas temos a mesma paixão por futebol, pelo Fluminense.
Normalmente concordamos quando o assunto é esse, ultimamente só não está havendo acordo quando a questão é o Gérson, que você acha "fraquinho" e eu acho muito bom jogador, só é um pouco preguiço, rs.
O que não dá pra discordar é que se um dia eu for 10% do cara forte, generoso, honesto, inteligente e batalhador que você é, eu já me sentirei completo.
Hoje é feliz aniversário, pai. Os parabéns, você merece sempre.
*Carta para meu pai.
Você não é guitarrista de uma banda de rock, como foi Harrison nos Beatles, mas colaborou muito pro meu amor pela música.
Você não é um dos maiores humoristas e intelectuais de todos os tempos, como Millôr, mas é um cara sábio e sempre tem tiradas humoradas.
Você não escreve, dirige filmes, é jornalista, como Machado, Scorsese e Talese, mas sempre me incentivou (e muito) a traçar meu caminho profissional.
Você nunca jogou tanta bola, como Zidane, mas temos a mesma paixão por futebol, pelo Fluminense.
Normalmente concordamos quando o assunto é esse, ultimamente só não está havendo acordo quando a questão é o Gérson, que você acha "fraquinho" e eu acho muito bom jogador, só é um pouco preguiço, rs.
O que não dá pra discordar é que se um dia eu for 10% do cara forte, generoso, honesto, inteligente e batalhador que você é, eu já me sentirei completo.
Hoje é feliz aniversário, pai. Os parabéns, você merece sempre.
*Carta para meu pai.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Política é amor
Vem para minha base aliada. Ajude-me a debater quem se opõe a nós. Não promova meu impeachment. Governe minha vida. Queremos dividir. Vamos multiplicar. Sem promover injustiças. A culpa foi só sua. Uma hora, vamos ficar juntos. Somos até parecidos. Muitos dos nossos querem a mesma coisa.
Amor é política, meu amor. Política é amor, meu amor. Pena que o amor é cego. Porém, precisamos não enxergar certas coisas para ver melhor.
(Ao som de Radiohead - House Of Cards)
Amor é política, meu amor. Política é amor, meu amor. Pena que o amor é cego. Porém, precisamos não enxergar certas coisas para ver melhor.
(Ao som de Radiohead - House Of Cards)
quinta-feira, 17 de março de 2016
Águas passadas
Vocês já andaram de carro com um motorista cego? Eu já. Várias vezes. E é um dos melhores que conheço. Melhor entre os motoristas. Entre os cegos, também. Isso porque, ele enxerga de um olho. Esse cara não sou eu - apesar dos textos caolhas desse antro de palavras perdidas. Esse cara é meu pai. Meu pai é o cara. Minha maior referência na condução desse trem desgovernado que é a vida.
Recentemente, fomos de carro a um município vizinho, aqui ao lado da cidade do Rio de Janeiro, e na volta pegamos uma chuva das boas. Das boas, não. Das ruins. O trânsito parou em vários trechos do caminho, ruas alagadas, acidentes, carros boiando, pessoas perdendo bens materiais e até se machucando fisicamente. Vistas bem negativas.
Aliás, falando em visões pouco boas, meu pai estava no volante nesse dia tenso. Eu havia chovido muita cerveja e vodca no meu fígado e não estava em condições de dirigir. As outras pessoas que estavam no veículo não sabiam uma gota de direção. O jeito era o homem que não enxerga de um olho (devido a um acidente de carro) nos guiar até em casa. “Já vi cego ser guiado. Essa é a primeira vez que vejo cego guiar” brincou o coroa enquanto tentava ver um palmo à frente do nariz.
Em um ponto do caminho, já perto do Rio de Janeiro, eis que surge uma grande poça d'água. Daquelas que assustam até veículos piratas. Os carros paravam, olhavam e voltavam. Ninguém queria encarar a poça que mais parecia um lago. “Disseram que tem um Fusca no fundo” afirmou um motorista que recuou diante do monte de H2O.
Meu pai já não estava enxergando nada. A água que desabava no vidro da frente do carro obstruía a visão. A única visão. A única, não. Eu também não via nada. Embaçou, tipo TV com sinal ruim, videogame pifado, essas coisas. E olha que eu já estava ficando sóbrio. Decidimos parar o carro no posto de gasolina próximo à poça, por onde os motoristas estavam fazendo o retorno para escapar do mar que virou o sertão de asfalto.
“Melhor não se arriscar. Já vi muitos carros e pessoas morrerem quando essa poça se forma aqui” alarmou o frentista. Esperamos três horas e a chuva só aumentava. A poça ficou ainda mais assustadora. Contudo, meu pai não é de nadar e morrer na praia. Herdei isso dele. Miramos a água e decidimos passar. A chuva não passa; nós passaremos. “Não passarão”, deve ter pensado o fascista, digo, frentista, que, em minha opinião, só queria companhia no deserto posto de combustível.
Primeira marcha. Assim que se passa por uma dificuldade: passo a passo. Pé a pé. Devagar. Força, carro. Força. Tensão no veículo. Se o buraco for mais embaixo? Se houver buraco? Se for mais água do que estamos (não) vendo. Eu estava com medo. Pior, eu não via o motivo do meu medo. Todo adversário invisível é mais forte. Ué? Já acabou, poça? “Tanta gente com medo disso? Fala sério”, disse meu pai, aumentando os faróis, os olhos do carro, para ver melhor. Águas passadas são mais calmas. É só ter coragem de passar e não boiar. Navegar (ainda que de carro) é preciso.
Recentemente, fomos de carro a um município vizinho, aqui ao lado da cidade do Rio de Janeiro, e na volta pegamos uma chuva das boas. Das boas, não. Das ruins. O trânsito parou em vários trechos do caminho, ruas alagadas, acidentes, carros boiando, pessoas perdendo bens materiais e até se machucando fisicamente. Vistas bem negativas.
Aliás, falando em visões pouco boas, meu pai estava no volante nesse dia tenso. Eu havia chovido muita cerveja e vodca no meu fígado e não estava em condições de dirigir. As outras pessoas que estavam no veículo não sabiam uma gota de direção. O jeito era o homem que não enxerga de um olho (devido a um acidente de carro) nos guiar até em casa. “Já vi cego ser guiado. Essa é a primeira vez que vejo cego guiar” brincou o coroa enquanto tentava ver um palmo à frente do nariz.
Em um ponto do caminho, já perto do Rio de Janeiro, eis que surge uma grande poça d'água. Daquelas que assustam até veículos piratas. Os carros paravam, olhavam e voltavam. Ninguém queria encarar a poça que mais parecia um lago. “Disseram que tem um Fusca no fundo” afirmou um motorista que recuou diante do monte de H2O.
Meu pai já não estava enxergando nada. A água que desabava no vidro da frente do carro obstruía a visão. A única visão. A única, não. Eu também não via nada. Embaçou, tipo TV com sinal ruim, videogame pifado, essas coisas. E olha que eu já estava ficando sóbrio. Decidimos parar o carro no posto de gasolina próximo à poça, por onde os motoristas estavam fazendo o retorno para escapar do mar que virou o sertão de asfalto.
“Melhor não se arriscar. Já vi muitos carros e pessoas morrerem quando essa poça se forma aqui” alarmou o frentista. Esperamos três horas e a chuva só aumentava. A poça ficou ainda mais assustadora. Contudo, meu pai não é de nadar e morrer na praia. Herdei isso dele. Miramos a água e decidimos passar. A chuva não passa; nós passaremos. “Não passarão”, deve ter pensado o fascista, digo, frentista, que, em minha opinião, só queria companhia no deserto posto de combustível.
Primeira marcha. Assim que se passa por uma dificuldade: passo a passo. Pé a pé. Devagar. Força, carro. Força. Tensão no veículo. Se o buraco for mais embaixo? Se houver buraco? Se for mais água do que estamos (não) vendo. Eu estava com medo. Pior, eu não via o motivo do meu medo. Todo adversário invisível é mais forte. Ué? Já acabou, poça? “Tanta gente com medo disso? Fala sério”, disse meu pai, aumentando os faróis, os olhos do carro, para ver melhor. Águas passadas são mais calmas. É só ter coragem de passar e não boiar. Navegar (ainda que de carro) é preciso.
Assinar:
Postagens (Atom)