segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Fiz 21

Fiz 21. Não, não liguei para ninguém. Não, não joguei baralho. Falo da minha idade. Ontem 5/9 fiz 21 anos. Não senti o frio do meu inferno astral. Minha vida pessoal está quente quanto um fogo que arde sem se ver. O meu livro foi publicado pela “Mojo Books” e meu programa de rádio está no ar pela rádio da faculdade. A beleza do céu de Verão faz o Inverno ficar ainda mais feio.

Fiz 21. Me sinto um jovem índio com 11 anos e 10 dedos dentro de uma luva cheia de formigas. Meu rito de passagem. A vida passa com pressa por mim. Não tenho mais relógios com chicletes e nem bombinhas para jogar na casa da vizinha fofoqueira e adulta.

Fiz 21. Não é adulto passar a tarde toda assistindo desenho embaixo do edredom. Neste horário, tenho que trabalhar e no trabalho não posso ser individualista. Não posso me esconder sozinho brincando de garrafão. Nos engarrafamentos, sinto falta de quando brincava com um só carrinho e não podia falar palavrão. Os ponteiros giram, varrem o tempo e deixam a saudosista poeira da infância.

Fiz 21. Não posso mais guardar votos de confiança na urna do depois. Não serei mais protegido pelo ECA. Preciso pagar para ter minha higiene. Devo cuidar de mim.

Fiz 21. Alcancei a maior maioridade. Daqui para frente é regressão. Já sinto saudades.

(Ao som de: Pato Fu - Música de brinquedo)

5 comentários:

Dayane disse...

Seu estilo de escrita toca lá no fundo das emoções, fiquei emocionada.E a propósito, tenho certeza de que você será um homem digno da maior idade com alma de um garoto de quando ganha uma bola nova.
"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca.
Clarice Lispector


Te amo.

Paula S disse...

Vc é tão sensível nas palavras. Tão grande: tem humor, tem amor, tem melancolia. É lindo.

Eu esava com saudades desses textos.

;)

Leon K. Nunes disse...

Meus parabéns, cara. É bom ter blog para expressar isso, geralmente coisas que ninguém tem saco pra ouvir nas rodas de conversa. Achei legal os lemas subvertidos, os fraseados antitéticos, as contradições dando um sentido bem peculiar.

Eu não sou muito mais velho, tô chegando nos 25, e não gosto de papo de sujeitos metidos a experiente do tipo "já passei por isso". Na verdade, eu concordo com o teu fechamento: daí dos 21 pra frente é tudo regressão. Pra mim, o que veio depois dos 20, parece tudo um mais-do-mesmo. Acho que também não adentrei no mundo adulto...

Yullia Marizia disse...

Amei o texto. Nascemos no mesmo dia, sou só 2 anos mais nova =)

Gostei do blog, to seguindo. E olha que ultimamente achar um blog que me agrade ta difícil. Parabéns atrasado!
Beeeijos.

Paula S disse...

Não vai atualizar essa porra não?